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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

GEOGRAFIA E GLOBALIZAÇÃO: O CAPITALISMO E A EVOLUÇÃO DOS CONHECIMENTOS GEOGRÁFICOS




CAPÍTULO 2[1]
GEOGRAFIA E GLOBALIZAÇÃO:
O CAPITALISMO E A EVOLUÇÃO DOS CONHECIMENTOS GEOGRÁFICOS

 2.1.1.   INTRODUÇÃO

Discorreremos neste capítulo sobre os principais aspectos da evolução do pensamento geográfico do período que vai do século XV até os dias atuais. Nosso objetivo é tentar relacionar o desenvolvimento deste saber com o avanço do processo de globalização. Para tanto selecionamos algumas obras referentes à história do pensamento geográfico de autores que pertencem à chamada geografia crítica, próximos à teoria marxiana ou  trabalhos que trazem informações importantes tendo em vista nosso objetivo básico.


Esclarecemos,  que tendo em vista o propósito geral do nosso trabalho,  não pretendemos abarcar todos os detalhes da etapa citada e nem mesmo temos a pretensão de esgotar completamente as questões. Trata-se de um relato extremamente sucinto considerando os nossos propósitos.

De início, trataremos resumidamente da história do conhecimento geográfico dos primórdios dos tempos modernos até aproximadamente o século XVIII; em seguida, abordaremos  a fase posterior, aproximadamente do final do século XVIII  até o início do século XIX,  na qual se notabilizaram os institucionalizadores desta ciência; logo após, estudaremos  o período de consolidação e de difusão do conhecimento geográfico, denominado período clássico - convencionaremos, sumariamente, que este período teria transcorrido de 1901 a 1946; e,  finalmente, abordaremos o período moderno, transcorrido  após a Segunda Guerra Mundial (ANDRADE,1992, 63).

Abordaremos, a seguir, conforme foi proposto,  a evolução dos conhecimentos geográficos nos tempos modernos.

2.1. 2.  O CONHECIMENTO GEOGRÁFICO NOS TEMPOS MODERNOS
A  enorme expansão do espaço conhecido, o conhecimento da conformação terrestre e o repúdio a um leque de idéias e mitos sobre a superfície da Terra revelaram-se revolucionários para o saber geográfico na Idade Moderna (ANDRADE, 1992, 43).

A dilatação do território conhecido refletiu-se primeio sobre a cartografia, que sofreu transformações e aperfeiçoamentos. Os conceitos de latitude e longitude, sem precisão nos mapas da Antiguidade e da Era Medieval, comumente utilizados, ganharam correções,  e um novo continente, a América, neles foi desenhado. Por um longo período perdurou o debate se a Terra  seria composta de três ou quatro partes. Ou seja, se ela seria formada por três ou quatro continentes. Os novos caminhos marítimos, descobertos no século XVI,  autorizavam a certeza de que havia um quarto continente, entre  o oceanos Atlântico e Pacífico. Anos depois, já no século XVII, as viagens exploratórias de Dampier e de Tasman confirmaram a existência do então previsto quarto continente, a Austrália. Além disso, supunha-se a existência de mais uma massa continental, a Antártida, ao sul. No entanto,  esta apenas se tornaria mais conhecida no século XX, principalmente após o Ano Geofísico Internacional, realizado em 1958.

Considerando os mapas que renovaram a cartografia, mencionaremos o mapa de Martim Behaim, cosmógrafo de Nüremberg, que depois de instalado em Lisboa, construiu o famoso globo, abarcando o leste da Ásia, que leva o seu nome (SODRÉ, 1986, 21); e de Gerhard Mercator, considerado o pai da cartografia moderna, mapa que mostrou-se revolucionário, baseado nos princípios da projeção e não na geometria plana como toda a cartografia que o antetecedeu, apesar de que nele os paralelos e meridianos dispostos em linha reta, quando representam a superfície terrestre, aumentam as terras situadas em altas latitudes e tormam menores as terras próximas ao equador. Mercator reafirmou e consolidou o paradigma do Renascimento ao introduzir na linguagem cartográfica a idéia de projeção, deslocando de uma vez por todas o lugar do sujeito observador (SANTOS, 1997, 128).
Em se tratando de cosmografia, a obra de Sebastião Munster, particularmente a “Cosmografia”,   teve grande destaque (SODRÉ, 1986, 21).

A importância estratégica do conhecimento científico para o alcance dos objetivos comerciais e políticos dos reis era evidente. Deste modo, os soberanos de Espanha fundaram, em 1503,  a Casa de Contratação de Sevilha, reformulada posteriormente em autêntica escola de pilotos. Nela estudava-se as bases técnicas da navegação, as informações sobre os mares, as costas, e desenvolvia-se os conhecimentos relativos à astronomia, à náutica e à meteorologia.

Do século XV ao século XVIII ocorreram aperfeiçoamentos nos conhecimentos a respeito do magnetismo terrestre, discriminado-se a diferença entre o pólo magnético e o geográfico, fazendo-se com mais precisão, a medida das longitudes, com a correção dos mapas antigos. Foram melhor pesquisadas as correntes marinhas, de significativa importância para a navegação entre os continentes. Assim como a magnitude e o direcionamento dos ventos, principalmente os alísios. Os navios, em pleno mar tropical, tinham necessidade dos ventos alísios para a impulsão e precisavam de evitar as calmarias equatoriais, pois nelas poderiam permanecer estacionários durante meses, praticamente imóveis. Estes saberes originários da geografia ou ligados a ciências atualmente consideradas afins da geografia, contribuiriam para que, na Idade Moderna, no século XVII, aparecessem estudos julgados precursores da geografia enquanto ciência.

No século XVIII, em relação à configuração terrestre, foi demonstrado a forma dilatada na região  do equador e o achatamento nos polos. Em outras palavras, constatou-se que a Terra era redonda, mas não exatamente esférica, em decorrência do próprio movimento de rotação, desvendado por Galileu. Para a verificação destas características realizaram-se expedições à região polar (Lapônia) dirigidas por Maupertuis e Clairaut, em 1736, e às regiões equatoriais (Peru) sob o comando de Bouger e De la Condamine. Esta última com a responsabilidade de medir o arco do meridiano. Ficou estabelecido, assim, o maior comprimento do grau do meridiano na região polar do que na região equatorial, constatando-se que o geóide é exatamente achatado nos pólos e dilatado no equador.

A grande evolução da astronomia, nesta época, repercutiu diretamente sobre o conhecimento geográfico: a descoberta da lei da gravitação universal por Isaac Newton, a proposição do sistema solar heliocêntrico, por Nicolau Copérnico (colocando um ponto final na crença da Terra como centro do sistema planetário), o descobrimento da forma da órbita dos planetas em seu movimento de translação, por Kepler, e, finalmente, as grandes descobertas de Galileu. Este deslocou radicalmente a posição do sujeito e abriu espaço, posteriormente, tanto para o advento do empirismo mais tacanho quanto para o idealismo transcendental, tanto para o mecanicismo de Newton quanto para o relativismo de Einstein, tanto para o descritivismo da cartografia quanto para o romantismo de Ratzel (SANTOS[1], 1997, 218).

Amadureceram, desta forma, as condições para a consolidação das diversas áreas de saber no conhecimento científico e para o aparecimento das diversas ciências, com relativa autonomia (ANDRADE, 1992, 44).

2.1.3.  OS PRECURSORES DA GEOGRAFIA

Quando se inicia o século XVII, os conhecimentos geográficos espalhados e relacionados às diversas disciplinas correlatas à geografia,  existiam em grande número e demonstravam relativa profundidade.

Copérnico, na astronomia, redesenha o sistema planetário, propondo o sistema heliocêntrico, posicionando o Sol como centro do universo e assumindo que os satélites giravam em torno dos planetas. Confrontava assim, o antigo sistema geocêntrico de Ptolomeu, referendado pela Igreja e pelo mundo oficial, no qual a Terra era o centro do universo. Kepler,  posteriormente,  tornaria mais preciso o sistema de Copérnico, demonstrando que os planetas não percorreriam órbitas circulares, mas elípticas, acontecendo em cada translação um instante no qual os planetas estariam mais próximos do Sol, o periélio, e outro no qual estariam mais distantes, o afélio.

A estrutura da Terra e a formação das rochas passaram a ser objeto de grande preocupação por parte dos geólogos. A atividade vulcânica e outras manifestações catastróficas contribuiram para o desenvolvimento da noção de que a Terra era portadora de um incomensurável calor interno que dissolvia as rochas mais resistentes, expulsando-as por meio dos vulcões, em correntes de lava e nuvens de cinza. Estas concepções estimularam também a elaboração de teorias sobre o papel dos fenômenos internos na configuração do relevo terrestre. Leibnitz realizou o esforço de explicar que as rochas sedimentares, por terem sido obra de deposição pelas águas ou pela atividade eólica, se apresentavam dispostas em camadas. Outros estudiosos se empenhavam na identificação de fósseis nas rochas sedimentares, com a intenção de fazer descobertas paleontológicas e também determinar a idade da Terra.

Montesquieu, o célebre humanista francês, considerou que os climas tinham grande influência sobre as idéias e a vida prática dos homens, antecipando, desta maneira, o determinismo geográfico de Ratzel.

Isaac Newton, o então incontestado físico inglês, desenvolveu o princípio da lei da gravitação universal,  apresentando a solução para o enigmático problema que preocupava a ciência: o motivo pelo qual os seres não se descolavam da superfície terrestre.

Para o conhecimento geográfico, no entanto, o personagem principal foi o de um médico holandês, Bernardo Varenius, que na primeira metade do século XVII, compôs uma obra, que apesar de inacabada,  revelou-se importantíssima: a “Geografia Geral”. Neste livro, que será um dos fundamentos das teorias de Newton (MORAES, 1990, 33), Varenius discorreu sobre a denominada geografia matemática, que aborda a Terra como astro e busca conhecer as relações existentes entre ela e os outros corpos celestes; em seguinda, trabalhando questões referentes à geografia física, tentou explicar o desenho do relevo, as bacias fluviais e as condições do clima nas suas interconexões, chegando à atuação da sociedade e dos homens na construção do espaço. Nesta terceira seção de sua obra, Varenius apresentou um tratamento mais genérico, menos profundo, tendo em vista a sua morte prematura. De um modo geral,
ele não se restringiu à descrição da superfície terrestre, fundamentado apenas na observação e nos dados do momento, mas buscou a explicação da origem dos fenômenos e das formas que desenham a Terra; por isso,  o interesse de Isaac Newton pelo seu livro, a ponto de reimprimi-lo em 1762. O inequívoco mérito de Varenius reside na operação que uniu, na sua obra, a geografia geral, de natureza matemática, à geografia descritiva, de natureza humanística, literária, em um todo coerente, e, sobretudo, o propósito tanto de descrever quanto o de interpretar as formas e fenômenos observados, apontando relações causais. Revelou-se um precursor de Kant, que por mais de duas décadas foi professor de geografia física na Universidade de Kroeninsberg, e do próprio Humboldt, considerado o patriarca da geografia científica. O legado de Varenius exige mais divulgação e debate pelos que  fazem a ciência geográfica nos dias atuais e o que ele deixou é suficiente para mensurar a sua extraordinária relevância (SODRÉ, 1986, 23).

2.1.4.  O CAPITALISMO E O DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA  GEOGRÁFICA
O  desenvolvimento do capitalismo, nos séculos XVIII e XIX, condicionou a aceleração do desenvolvimento  das ciências em geral e, especificamente, o da geografia. A partir do século XV, o capitalismo comercial impulsionaria a grande expansão das navegações e, em decorrência, o da descoberta dos novos continentes e ilhas, ampliando a atividade comercial entre os povos que viviam em situações “naturais”, nas mais diversas organizações de sociedade. O continente Europeu, portador da civilização que apresentava o maior dinamismo, detinha o maior domínio da tecnologia e alargou a sua hegemonia econômica e política para toda a superfície terrestre, ou, no mínimo, para as regiões do litoral, de fácil penetração aos seus navios. A classe dos burgueses, capitalizada por meio do comércio, assumiu notabilidade, produzindo em maior magnitude e intensificando o contato como outros povos. De posse do dinheiro, exercendo o controle dos meios de transporte e das atividades comerciais, ela foi reduzindo o espaço da nobreza (proprietária fundiária e possuidora de cargos e honrarias),  levando-a a permanecer em plano secundário. Os próprios soberanos e a nobreza de maior prestígio passaram por um processo de emburguesamento, desenvolvento atividades ligadas ao comércio.

A riqueza da burguesia e o seu ascendente poderio no governo e na administração impulsionaram o desenvolvimento das técnicas e das pesquisas, objetivando uma maior e  mais eficaz exploração da natureza. Pressionando pelo controle dos meios de produção, ela realizou a sua revolução política e aniquilou o secular regime monárquico da França, sucedendo-se após a citada revolução política uma autêntica revolução na cultura e na esfera  administrativa. A ideologia da Revolução Francesa foi exportada para outros países da Europa, principalmente sob o Império de Napoleão, e, apesar desses regimes monárquicos perdurarem, acabaram, de alguma forma,  transigindo e incorporando diretrizes que possibilitaram, e muitas vezes,  foram um estímulo para o pleno desenvolvimento da sociedade burguesa.

Desde a Revolução Gloriosa, realizada em 1688,  na Inglaterra, a burguesia abocanhava progressivamente parcelas do poder e promovia uma política inteiramente necessária aos seus interesses de classe: a  de enfraquecimento sistemático dos poderes reais. Explica-se assim, dentre outras razões, o fato da Revolução Industrial ter-se iniciado na Inglaterra, no século XVIII, se alastrado pelo território francês na primeira metado do século XIX, e logo após pela Europa central e ocidendal, a partir dos meados do século XX.

Uma extraordinária revolução de ordem cultural e técnica foi produzida pela inusitada importância política da burguesia. Durante a segunda metade do século XVIII, as ciências da natureza, como a física, a química, a biologia, a botânica, a zoologia, a astronomia, evoluíram com reflexos no campo da geografia.  A influência da Igreja e a reverencia às idéias tradicionais ocasionaram embates entre a ciência e a religião, mas as concepções e os princípios finalistas e teleológicos começaram a perder vigor. A Filosofia das Luzes foi sendo paulatinamente substituída pelo racionalismo burguês. A filosofia debateu problemas e crenças e assentou os fundamentos das novas ciências, as sociais, que tiveram desenvolvimento no século XIX. O final do século XVIII, pode ser admitido como o término da longa etapa inicial, preliminar, preparatória da geografia, em outras palavras, a sua chamada pré-história (SODRÉ, 1986, 23).

Esta ciência, foi amplamente influenciada pelo pensamento de Kant, embora este a concebesse como  uma disciplina do âmbito da razão prática e admitisse, em decorrência, que ela era, semelhante à história, um ciência descritiva, assumindo-se, desta maneira o caráter corológico, enquanto a história era cronológica. Aceitava também a dicotomia entre geografia física e a humana, tendo em vista que em suas aulas demonstrava que a geografia elaborava o sumário ordenado da natureza, desmembrando-se em duas partes, a primeira, geral, abarcando a Terra, as águas, o ar, os continentes, e a segunda, particular, abordando os produtos da terra, em outras palavras, o homem, os animais, os vegetais e os minerais. Na sua concepção havia na geografia cinco abordagens: a matemática, preocupada com a análise da forma, dos movimentos, das dimensões e da localização terrestre no sistema planetário; a da geografia moral, abarcando os hábitos e costumes regionais; a da geografia política, que se dedicava ao estudo dos estados;  a da geografia mercantil, que enfocava as atividades comerciais; e a da geografia teológica, que pesquisava as manifestações religiosas.

Leibnitz e Herder  também se preocuparam com questões geográficas, e Paul Claval, apud Andrade (1992, ANDRADE, 47), defende que o último teria influenciado de forma mais significativa a Humboldt e Ritter do que o próprio Kant. Herder, de certa maneira apresentou-se como um determinista; considerando as discrepâncias das condições naturais nas várias regiões da superfície terrestre, propunha que cada povo cumpria o seu destino e erguia a sua civilização, conforme a relação com o meio físico. No relacionamento entre o homem e natureza, os homens individuamente não faziam história, e sim, o povo, os agrupamentos unidos por uma comunhão étnica, cultural, religiosa, etc. O grupo, ou o povo, e não meramente o indivíduo é que seriam os impulsionadores das modos de ocupação territorial.

O saber a respeito dos novos mundos, recentemente descobertos,  impressionou a classe dominante da Europa, que buscava razões para a diversidade presente entre as áreas e países, deslumbrando-se com as diferenças culturais encontradas. Este fascínio provocou a elaboração de inúmeras obras, estimulou, posteriormente, a constituição de sociedades científicas e exploratórias, alavancou a organização de expedições militares e o aparecimento de tendências que procuravam explicações para aquelas diferenças. Os povos da Europa, superiores do ponto de vista econômico, político, e principalmente, da tecnologia militar, disseminaram diante dos povos que confrontavam, a noção de sua superioridade racial, concebida como uma decorrência da ação do clima. O preconceito racial europeu de então,  fortaleceu-se, alcançou os dias atuais, ganhando notoriedade, por exemplo, por meio do Conde de Gobineau, e a concepção da influência exacerbada do clima sobre os povos resultaria no determinismo geográfico. Hobbes e Rousseau, pensadores políticos, elaboraram perspectivas contraditórias sobre os povos considerados selvagens. O primeiro defendeu que o selvagem era, principalmente, de índole malévola, que a sociedade se constituiu sob a dominação dos fortes sobre os fracos e que a criação do Estado, o chamado Leviatã, teria que ser forte e estabelecer o seu poderio por meio da imposição das suas normas e interesses sobre os fracos. O segundo, com idéias diametralmente opostas, preconizava que o selvagem era de caráter benigno, cândido, e que por meio de um pacto entre os homens, denominado contrato social, foi gestado o Estado, afirmando o descrédito no direito divino dos reis e dando visibilidade ao princípio de que os homens devem escolher a forma de governo que lhes convém. Destas concepções brotaram os princípios fundamentais para o constituição do Estado moderno.

Montesquieu propôs  modalidades de governo fundadas na democracia, com a clássica separação de poderes, entretanto, ao discorrer sobre os fenômenos geográficos, reconhecia a representativa ação da natureza sobre o pensamento e ação do homem.

Simultâneamente aos filósofos e cientistas políticos que refletiam sobre o relacionamento entre a natureza e o homem organizado socialmente, sobre as manifestações do estado, do governo e das religiões, dentre outros temas, os comerciantes e administradores organizavam o universo de recursos a disposição e possíveis de exploração e compunham a sua contabilidade para maximizar os lucros. Desta forma, originou-se a estatística, a geografia política e a economia, primordialmente concebidas tanto como autênticos catálogos de estados e cidades quanto como a distribuição da produção.

O século XIX trouxe no seu bojo os fundamentos de uma grande revolução econômica e cultural que fortaleceria a hegemonia da burguesia e do modo de produção capitalista por todos os continentes.

Em termos ideológico-culturais, ocorreu a consolidação da chamada razão instrumental. Esta possibilitava o domínio sobre a natureza, ocasionando sua exploração em proporções inéditas, a supremacia da técnica, a supervalorização das ciências, com o propósito do desvelamento de leis universais, a partir das concepções de Newton, e, sobretudo, a fé generalizada no  progresso inintenrrupto. A humanidade, fazendo uso dos instrumentos que criara, exerceria o poder absoluto sobre a natureza, forçando-a a produzir inteiramente de acordo com esses interesses. A idealização do papel histórico  da Europa se firmou concomitantemente  a expansão de sua civilização por toda a Terra,  em um processo de exploração  e submissão dos povos considerados selvagens e bárbaros. Dentre outros inúmeros exemplos, segundo Andrade,  em pleno século XX,  na década de 1930, a Itália explicaria a invasão do território etíope e sua transformação em colônia, sob a alegação que promoveria a civilização, ocultando os interesses de rapina que, de fato, orientavam a sua política. Os mesmos argumentos que os povos colonizadores haviam imposto, no século anterior, para justificar a guerra e o domínio sobre os povos asiáticos e africanos (ANDRADE, 1992, 49).

2.1.5.  A CIÊNCIA DO SÉCULO XIX E O SURGIMENTO DA GEOGRAFIA MODERNA
As bases econômicas, políticas e culturais do princípio do século proporcionaram os norteamentos teóricos e científicos que transportariam o pensamento do século XIX em direção ao positivismo, elaborado por Auguste Comte. A obsessão pelo controle da natureza resultou no crescimento das ciências da observação e da experimentação, do domínio da chamada razão prática, segundo a expressão de Kant. Os cientistas, por esta época,  buscavam o acúmulo de conhecimentos empíricos e o desenvolvimento das conseqüentes teorizações (ANDRADE, 1992, 49).

Os governos dos países mais engajados na expansão colonialista, tais como Inglaterra, França, a Prússia e, depois de 1871, a Alemanha, a Rússia, dentre outros, instigaram o aparecimento das sociedades geográficas que patrocinavam viagens científicas ao interior dos continentes africano, asiático e americano do sul. O objetivo principal era a busca de recursos que pudessem ser objeto de exploração. No Brasil, no início do século XIX, foram inúmeros os cientistas da Europa que viajaram pelo nosso território, escrevendo obras sobre a natureza nativa e suas formas de exploração, a situação de vida do povo, incentivando, desta maneira, o desenvolvimento da antropologia cultural, ciência vizinha da geografia humana. Além disso, em 1838  havia sido fundado o Instituto Brasileiro de História e Geografia, correlato às sociedades geográficas da época (CAPEL, 1982, 174).

O périplo realizado por um dos mais importantes cientistas do século XIX, o inglês Charles Darwin, com o objetivo de pesquisar a fauna e flora nos diversos continentes, resultou em um livro célebre, “A origem das espécies”. Assim teve início o evolucionismo que influenciou de forma decisiva inúmeros cientistas e pensadores. Haekel, seguidor de Darwin, ao estudar as relações entre o homem e o meio inauguraria o emprego da palavra “ecologia”, e Herbert Spencer levaria para as ciências sociais as concepções darwinistas. O evolucionismo redundaria no organicismo, que estabelecia uma relação  analógica entre os organismos e a sociedade, e também levaria à convicção no progresso sem fim e no aprimoramento do homem, sendo que esta concepção seria comum tanto aos positivistas quanto aos anarquistas da segunda metade do século XIX.

A transplantação do princípio da seleção natural, demonstrado por Darwin, para as ciências sociais, funcionou como justificativa para a supremacia dos vencedores da luta no interior e entre as sociedades capitalistas. Justificava no nível individual, a desigualdade social, as diferenças de renda, e, no nível geral, autorizava o predomínio dos estados mais fortes, julgados mais capazes, sobre os mais fracos, os dominados e explorados. Ou seja, justificava ao mesmo tempo, as desigualdades da sociedade, internamente, e a política colonialista externamente. Os fundadores da geografia não permaneceram alheios a estas idéias.

No século XIX, a flagrante injustiça da sociedade capitalista serviu de estímulo para que alguns pensadores elaborassem  teorias  contrapostas aos axiomas justificadores do capitalismo em expansão. Esta crítica inicialmente foi realizada pelos denominados socialistas utópicos. Em seguida, entraram em cena os pensadores materialistas, que fundamentados na observação, no estudo do desenvolvimento das estruturas sociais, contestaram estas estruturas e deram início a criação de um método forjado a partir da dialética. A superação da sociedade capitalista estava posta em questão. A filosofia dialética procurava se opor à filosofia positivista. As concepções hegelianas, reinterpretadas por Karl Marx e Friedrich Engels, buscavam explicitar as contradições internas da sociedade numa perspectiva totalizadora. Estes autores além de aplicar o método histórico no estudo da formação do capitalismo e na sucessão dos modos de produção na Europa Ocidental, preocuparam-se com a questão da natureza. Marx, por exemplo, dissertou em sua tese de doutorado sobre as “Diferença entre a filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro”, e Engels, ao abordar a sociedade e a natureza,  considerava  relevante o relacionamento entre o homem e o meio, procurando demonstrar suas reações recíprocas. Na “Dialética da Natureza”, estudou as “transformações dialéticas provocadas na natureza virgem, pela ação do homem, explicando como ela, ao se reconstituir, não o fazia de forma semelhante à primitiva, mas apresentando novas características” (ANDRADE, 1992, 51).

O pensamento de Marx e Engels, contraposto à ideologia dominante na sociedade, não obteve repercussão sobre os geógrafos do século XIX. Estes, na sua maioria, permaneceram inteiramente identificados com o poder constituído de seus países. Além disso, Élisée Reclus e Pietr Kropotkin, geógrafos anarquistas, romperam com os partidários de Marx no seio da Primeira Internacional. Apesar do ideário contestador, ambos permaneceram circunscritos às diretrizes metodológicas positivistas.


2.1.6.  A CONTRIBUIÇÃO DE HUMBOLDT E DE RITTER
Constitui opinião quase unânime que Alexandre von Humboldt e Karl Ritter são os fundadores da geografia moderna. Contemporâneos, mantiveram relações estreitas com as classes dominantes do seu país. Viveram de maneira muito diferente, e no entanto, o pensamento de ambos desaguou na direção dos mesmos princípios.

Humboldt, nobre prussiano, se empenhou nos estudos das ciências da natureza, principalmente a botânica. Sua curiosidade  fez com que viajasse pelas terra da Europa, da Ásia Central e Setentrional e da América Latina. Percorreu latitudes de climas frios, temperados, tropicais e equatoriais. Observador minucioso, compilou imensa quantidade de dados, que sistematizou nas suas obras. Sua formação de naturalista não impediu o florescimento de sua incomparável curiosidade pelas coisas do homem e da sociedade. Considerava que os fenômenos sociais vinculavam-se estreitamente às condições naturais. Depois de correr o mundo, retornou para a Europa e fixou-se em Paris, incentivando a formação de sociedades e reuniões científicas, cooperando desta maneira para a ampliação do saber a respeito da superfície da Terra. Em Berlim, já na idade madura, tornou-se professor, e além disso,  conselheiro do rei da Prússia, dando mostras de preocupação com o desenrolar da unificação alemã (ANDRADE, 1992, 52).

Karl Ritter, igualmente prussiano, ligado às áreas das ciências humanas, foi filósofo e historiador. Íntimo das classes dominantes, foi preceptor de jovens de famílias ilustres, inclusive em viagens à Itália e à Grécia. Tornou-se um grande professor na Universidade de Berlim, tendo  se dedicado ao estudo minucioso da Ásia Menor (ANDRADE, 1993,12-3).

Um aspecto decisivo na obra de Ritter é a profunda influência exercida nesta pelo pedagogo suíço, J. E.  Pestalozzi. Autores defendem que as concepções de Ritter não são nada mais que a aplicação do método de Pestalozzi à geografia. O assunto é polêmico, mas, segundo Capel, nota-se  um fundo de verdade nesta crença. De fato observa-se tal influência desde o uso do conceito de “tipo” até a sua produção cartográfica, que tem sido interpretada em relação à importância que Pestalozzi reservava ao desenho, como forma de visualização intuitiva das unidades geográficas (CAPEL, 1982, 45).

Os maiores geógrafos do final do século XIX, como Friedrich Ratzel, Élisée Reclus e Vidal de la Blache foram seus  entusiásticos admiradores e alunos, e, no entanto, Ritter não fez escola (ANDRADE, 1992, 52)

As concepções fundamentais de Humboldt  formaram-se da convergência do racionalismo da Ilustração francesa, do século XVIII, do idealismo alemão e da perspectiva positivista. Vem deste legado o projeto de estabelecer leis gerais que explicassem a realidade, fazendo a ligação  do povo, elemento social, ao meio ambiente. Para a descoberta das leis sociais, que eram a sua preocupação,  ele admitia e professava princípios fundamentados da obra de Newton. Sua formação de naturalista buscava abordar a natureza física, para chegar à explicação do desenvolvimento social, embora não se preocupasse com as relações sociais em si, reservadas, pelo pensamento da época,  a outra ciência ainda em formação, a sociologia.

Valorizando as técnicas cartográficas, que estavam em um período de grande aperfeiçoamento, Humboldt  elaborou o desenho de linhas que unissem os pontos que apresentassem temperaturas médias idênticas, as isotermas, para delimitar o que chamou de zodíaco isotérmico que deveria apresentar um largura de 35º tendo como centro o paralelo de 40º Norte.

Ao comparar a distribuição do relevo, as condições climáticas, e as formações vegetais em diversas latitudes, Humboldt fez a análise das conexões entre estes elementos, determinando causas e efeitos, levando a elaboração do princípio da causalidade, noção muito importante para os geógrafos da primeira metade do século XX (ANDRADE, 1992, 53).

Ao contrário de Humboldt, Ritter não foi viajante, nem explorador, mas um leitor voraz e talentoso escritor. Buscou, principalmente, descrever a sociedade, tentando explicitar o desenvolvimento do homem relacionando os conceitos de  povo e de meio natural. Partindo do idealismo de Shelling e do formalismo neoplatônico, aceitava que o todo era formado pela soma das partes e que da soma das partículas locais chegar-se-ia ao estabelecimento de leis gerais, pertinentes à toda superfície terrestre. Nisto se ancorava o princípio da geografia geral ou da analogia, empregado em sua extensa obra. Na tentativa de determinar leis gerais que dessem conta dos fenômenos humanos , encontrou obstáculos, tendo em vista que as leis sociais não apresentavam a uniformidade das leis físico-naturais. Na atualidade, este tema ainda embaraça a atuação dos especialistas das ciências sociais, fazendo com que inúmeras linhas teóricas resvalem para o organicismo (ANDRADE, 1992, 53).

A obra destes dois estudiosos deve ser considerada no contexto da sociedade alemã, tendo em vista a o desenvolvimento da dominação capitalista e do processo de unificação daquele país. A questão que orientava o desenvolvimento intelectual alemão no século XIX, concentrava-se no problema da unidade nacional. Este problema já se encontrava posto no início do século, e no seu transcorrer, sucederam-se diversas desdobramentos. Estava colocada a questão do espaço nacional no centro das atenções da sociedade alemã. A definição da indentidade, a demarcação da “área” dos alemães, ou seja,  tudo que justificasse o projeto de unificação exigia a discussão do espaço nacional. Na sociedade alemã, portanto, encontravam-se poderosos estímulos para a pesquisa e o debate dos temas geográficos. Por analogia, se a sociologia, segundo Engels, floresceu de forma autônoma em território francês, país ímpar no que se refere ao desenvolvimento das lutas de classe que sempre chegaram à decisão final, a geografia enquanto ciência autônoma, teve tudo para brotar na Alemanha, onde o problema do espaço ou do território localizava-se exatamente no centro dos problemas da sociedade. As teorizações de Humboldt e Ritter, elaboradas basicamente entre 1800 e 1840, inscrevem-se no campo do referendo científico às primeiras propostas de efetivação da unificação alemã. A receptividade experimentada pelos dois autores, comprovada no respeito e nas posições acadêmicas por eles usufruídas, demonstra a repercussão dos temas por eles abordados. Ou seja, o florescimento da sistematização da geografia, exatamente na Alemanha, aconteceu tendo em vista as condições específicas do desenvolvimento das relações capitalistas nesse país. No qual estava colocada o problema do espaço (e em decorrência o temário próprio da geografia) no centro da discussão política. Esta relevância provinha da fragmentação nacional vivida pelo povo alemão e do perfil retardatário de sua unificação. O debate geográfico no século XIX continuou,  recebeu a influência e, por sua vez,  influenciou esse processo de unificação, tendo sido obra, principalmente, dos dois pensadores alemães estudados. Além disso, todos os estudos geográficos posteriores vão se reportar às obras de ambos, tanto para contestá-las quanto para confirmá-las. Apesar das diferenças, os pontos concordantes vão representar para a geografia posterior os alicerces de uma geografia única. Deste modo, os dois geógrafos inauguraram uma perspectiva de continuidade no pensamento geográfico e estabeleceram a sua respeitabilidade acadêmica. No entanto, não formaram escola, deixaram uma  herança mais geral, que será recuperada pela Geografia Clássica. (MORAES, 1992, 50).

2.1.7.  A GEOGRAFIA DO PODER DE RATZEL
Friedrich Ratzel, também alemão e exatamente prussiano, ganhou notoriedade por ter concedido maior importância ao homem no seu pensamento geográfico. Tendo presenciado o processo que unificou a Alemanha, impulsionado pela Prússia, elaborou uma perspectiva geográfica inteiramente alinhada aos projetos de expansão do novo império. Ligado às ciênciais naturais, principalmente aos estudos antropológicos,  com formação em farmácia e zoologia, descreveu o homem como uma espécie animal e não como um ser histórico que vive em sociedade. Promoveu a extensão das idéias de Darwin para a explicação da evolução dos fenômenos sociais. Por meio da luta entre as espécies, com a vitória das mais capazes na sua adaptação à natureza, ocorreria a evolução. Este raciocínio também foi aplicado no estudo sobre os povos, sendo escolhidos para a sobrevivência os mais aptos para a adaptação e o controle do meio natural. Eis a justificativa para supremacia dos povos da Europa, identificados como civilizados e progressistas, diante dos povos considerados selvagens e bárbaros, pertencentes a civilizações retrógradas.

Estas noções induziram aos geógrafos ingleses e norte-americanos, principalmente, a proclamar o determinismo geográfico, pois para eles o homem era um mero produto do meio. Os norte-americanos careciam de justificativas para a pretensa supremacia  anglo-saxônica em relação as nações indígenas autóctones e os hispano-americanos do México e do Caribe, e, sobretudo, para a sua política de expansão. Os ingleses, beneficiários do maior império colonial existente, buscavam justificar o controle britânico sobre as mais diversas nações do globo.

Tendo como base estes conceitos darwinistas, Ratzel formulou as leis gerais que explicavam o relacionamento entre o homem e a natureza, mostrando que as diferenças entre os povos e culturas eram resultado destas relações no decorrer da história. No que se refere ao Estado, admitiu que este é a sociedade estruturada controlando um território. Assim,  o domínio do território define o Estado, a sua importância sendo estabelecida em decorrência da situação e  grandeza da extensão subjugada. São extremamente importantes, na sua elaboração política os conceitos de espaço e de posição. A evolução, retrocesso ou estagnação de um Estado são resultantes de sua capacidade de expansão, ou de contração. Ou seja, ampliação ou diminuição do território submetido. Eis a justificativa para as guerras de anexação e controle dos povos fracos pelos fortes. Um conceito estratégico seria o de “espaço vital”, utilizado pelo estado maior alemão nos meados do século XX, que significa a relação entre a população de um Estado e a capacidade de uso do seu espaço territorial. Moreira conseguiu sintetizar muito bem as concatenações do raciocínio ratzeliano:

“...os homens agrupam-se em Sociedade, a Sociedade é o Estado, o Estado é um organismo. A Sociedade e o Estado são o fruto orgânico do determinismo do meio. O Estado é um organismo em parte humano e em parte terrestre. É a forma concreta que adquire em cada canto a relação homem-meio, poder-se-ia dizer. A própria síntese. O Estado é assim porque possui uma relação necessária com a natureza: do espaço é que retira sua existência e desenvolvimento. Os Estados necessitam de espaço, como as espécies. A subsistência, energia, vitalidade e o crescimento dos Estados têm por motor a busca e conquista de novos espaços. Troquemos ‘Estado’ por ‘imperialismo’ e entenderemos Ratzel”. (MOREIRA, 1992, 33).
     

O pensamento de Ratzel repercutiu amplamente e conduziu ao seu discípulo, o sueco Kjellen, a utilizar a palavra “geopolítica”, que seria o elo de ligação  entre os conhecimentos dos geógrafos e os  propósitos dos generais. Em outras palavras, seria a operacionalização militar do saber geográfico, campo de estudos de grande aceitação nos dias de hoje. Mas, segundo Andrade,  seria bom fazer uma ressalva, se prospera uma geopolítica do poder, da dominação,  instrumentalizada pelas ditaduras, pelos conquistadores, pelas classes dominantes de um modo geral, pode-se também vislumbrar, ainda em construção, uma geopolítica dos povos, instrumento útil nas revoltas e guerras de libertação (ANDRADE, 1992, 55).

A obra de Ratzel só pode ser compreendida na conjuntura de uma Alemanha recém-unificada e que se encontrava desprovida de colônias num contexto em que a França, a Inglaterra, a Rússia e os Estados Unidos já haviam promovido a partilha do mundo. Ele prognosticou que, no decorrer do tempo, os impérios britânico e francês acabariam se desmembrando, tendo em vista a sua descontínia distribuição por áreas as mais diversas, associando povos de etnias e  culturas diferentes; e, ao contrário, imaginou a consolidação dos impérios russo e norte-americano, a julgar pela continentalidade, pelo aspecto contínuo e predominância quantitativa, econômica e cultural de um povo sobre os outros. Ratzel julgava que a sorte da Alemanha, localizada no coração da Europa, deveria estar no próprio continente europeu, expandindo-se para o leste e o sul, e, logo após,  para o oeste, onde a derrocada do império de Napoleão III poderia ser interpretada como sinal de decadência. A Alsácia e a Lorena, ricas em minério de ferro e de carvão,  já haviam sido conquistas pelo império alemão em detrimento da França. O expancionismo germânico fora da Europa contentar-se-ia com territórios menos importantes da África (Tanganica, Namíbia, Togo, Camerum) e alguns arquipélagos da Oceania. As indagações de Capel, servem de complemento ao que já foi visto:


“Fronteiras, domínio do Estado, expansão, proclamação do Estado acima das classes sociais, Estados fortes e Estados fracos, estabilidade da instituição política...poderá alguém por em dúvida que seriam estas precisamente a idéias que preocupavam, quando Ratzel escrevia, a burguesia industrial alemã, no momento em que a Alemanha havia se unificado, tendo alcançado  limites no confronto com outros poderosos vizinhos e em que se lança à expansão colonial fora da Europa, referendada pelo Congresso de Berlim? Restará alguma dúvida da relação entre as idéias científicas e a organização social? Poder-se-á negar que as vezes os cientistas sob um projeto que pretende ser objetivo não fazem mais  que contribuir para a justificação ideológica da classe dominante considerando de fato os problemas que interessam a esta e da forma que a ela interessa?” (CAPEL[2], 1983, 293).

A obra de Ratzel, apesar das críticas que provocou, influenciou sobremaneira a evolução da geografia. A própria geografia francesa constituiu-se com uma reação ao pensamento deste autor. Seu valor manifestou-se no propósito de colocar no centro do debate geográfico  os assuntos político-econômicos e o homem; mesmo que numa perspectiva naturalizante, e para justificar interesses adversários do humanismo (MORAES, 1981, 60).

2.1.8.  A GEOGRAFIA LIBERTÁRIA DE RECLUS E KROPOTKIN
A contribuição ao conhecimento geográfico de Élisée Reclus e Pietr Kropotkin é muito diferente daquela que anteriormente abordamos. Os primeiros se alinharam com as classes dominantes, conquistaram postos acadêmicos e serviram a soberanos e presidentes, os dois últimos contestaram a estrutura de poder, desqualificaram a existência do Estado, professaram idéias radicais de mudança social e saíram em defesa da classe trabalhadora. Positivistas, adversários de Marx na militância política, incorporaram, todavia, algumas categorias marxistas e anunciaram um caminho libertário tanto para a sociedade quanto para a geografia. Oriundos de classes sociais distintas, combateram pelas mesmas idéias e cooperaram em trabalhos de natureza política e científica.

Reclus, francês, vindo de família modesta, filho de pastor protestante, era destinado ao sacerdócio. O estudo da obra dos socialistas utópicos fizeram-no republicano e ateu. Conspirou para impedir o golpe de Luís Bonaparte, em 1851, e atuou na Comuna de Paris, em 1871, fato que o levou sair da França pela primeira vez, para fugir à prisão, viajando para a Irlanda, Estados Unidos e a Colômbia. Posteriormente sofreu o exílio, radicando-se na Suíça. As suas obras mais famosas, “A Terra”, em dois volumes, editada em 1869, a “Nova geografia universal”, que veio a público de 1875 a 1892, em dezenove volumes, e o “Homem e a terra”, publicada de 1905 a 1908, em seis volumes, foram frutos de minuciosa pesquisa bibliográfica realizada durante inúmeras viagens. Cuidadoso e valorizando o pormenor, ressaltava as descrições e as ilustrações cartográficas, o que o tornava acessível a um grande público. Diversamente dos seus contemporâneos, não segmentava a geografia entre física e humana, mas estudava em detalhes fenômenos físicos, apontando suas conexões com a ação antrópica, bem como as modificações realizadas pelo homem no meio natural para o seu melhor uso. A pesquisa do meio natural era uma tarefa que facilitava a compreensão do progresso da humanidade. Eis porque escreveu primeiro uma “Geografia Universal” na qual estabelecia um corte horizontal da superfície terrestre, com suas fronteiras políticas, sociais e culturais, e logo após, no livro “O homem e a terra” , efetuava um corte vertical, em profundidade, estudando a ação humana da pré-história até a época em que ele viveu. Não provocou conflitos com sociólogos e antropólogos, como vários geógrafos do seu tempo, pois não se preocupava em delimitar a geografia, assumindo uma visão científica totalizante.

A geografia, segundo Reclus,  deveria analisar os fenômenos baseada nas idéias de que a sociedade está subdividida em classes sociais, em decorrência das modalidades de apropriação dos meios de produção; que esta diferenciação de classes engendra a luta entre as classes dominantes que não ousam perder a hegemonia e a propriedade das riquezas; e finalmente, que existe uma propensão ao aprimoramento do indivíduo e à melhoria da sociedade diante do aperfeiçoamento inexorável do homem. Tal inferência era proveniente da sua fé arraigada no progresso, do seu cientificismo, ou seja, da concepção de que a atividade científica era a única portadora de soluções para os problemas, sendo capaz de promover a evolução social da humanidade.

Na ciência geográfica de Reclus as suas próprias concepções político-sociais estão sempre subjacentes, mesmo quando sob auto-censura, por razões editoriais, ou por motivos de sobrevivência. Estudando a supremacia britânica sobre a Índia demonstra como se realiza o processo de dominação efetivo, e abordando a ação européia na China, descreve uma dominação diversa, onde continua onipresente a exploração do dominador sobre o dominado (ANDRADE, 1992, 58).

Os assuntos em pauta no seu tempo, alguns ainda dramaticamente presentes, foram estudados nos seus livros numa perspectiva muito diferente da usual entre os seus contemporâneos. Tais como a questão colonial, a qual nunca promoveu a justificação; o da destruição da natureza exacerbada com a expansão capitalista global; a urbanização e industrialização aceleradas com suas seqüelas: problemas de saneamento básico, de transporte,  de abastecimento, de superpopulação,  do controle exercido pelos países do Norte sobre os países do Sul, classificados atualmente como subdesenvolvidos, dentre outros temas. Sob o seu ponto de vista, explicitou-se que já no final do século XIX,  em termos proporcionais em relação à população do globo, seria insignificante o contigente de povos ainda na fase da economia natural. Pois o capitalismo de forma desigual e combinada, já invadira todos os quadrantes da Terra. Embora Reclus se autodenominasse e fosse um comunista libertário, não conseguiu se livrar do eurocentrismo. Ele criticava a implantação de colônias de exploração, mas referendava o estabelecimento de colônias de povoamento em áreas com baixa densidade demográfica.
Atualmente com o florescimento de uma perspectiva crítica nas universidades, constata-se um ressurgimento do interesse pela obra de Reclus, que tem levado ao estudo dos seus princípios teóricos e a publicação em antologias dos seus escritos considerados mais atuais. (MOREIRA, 1992, 36).

Pietr Kropotkin, de ascendência nobre, da casa de Rurik, mais antiga que a dos Romanov, era filho de latifundiário. Pela sua estirpe, estava predestinado a seguir carreira militar, integrando os batalhões de elite que protegiam o Tzar. Freqüentou a corte e foi matriculado em escola preparatória de oficiais. O prazer da leitura e o interesse pela natureza fizeram  com que se integrasse ao Corpo de Cossacos do Amur, viajando ao Extremo Oriente. Oficial do Exército Russo, documentou-se sobre a região e trabalhou em levantamentos topográficos e geográficos no Sougari, nas montanhas do Grande Khingan, no Salan oriental e no Olekma-Vitim. Cruzou a Manchúria, em missão secreta, para fortalecer a influência do Império Russo no Extremo Oriente.

Egresso da Sibéria, onde corrigiu inúmeras cartas, sobre localização de montanhas e rios, inclusive fazendo a correção de mapas de Humboldt, renunciou à carreira no exército, dedicando-se a trabalhos científicos e a tomar parte em conspirações. Viajou à Finlândia e realizou  pesquisas científicas sobre a região setentrional, de clima glacial, pertencente ao Império Russo. Estudou glaciologia e previu a existência  no mar Ártico do arquipélago, denominado posteriormente Ilhas de Francisco José,  descoberto em seguida pelos geógrafos da Alemanha. Angariou notoriedade e integrou, por muitos anos, como secretário, a Sociedade Geográfica Russa, e pela relevância de suas pesquisas geográficas foi agraciado com a Medalha de Ouro.

Kropotkin por meio de viagens e expedições científicas acabou por conhecer as dificuldades da vida dos camponeses e sensibilizou-se com as precárias condições de existência destes que não tinham a  posse das terras, em contraposição à abundância e conforto daqueles que as possuíam. Esta desigualdade social intensificou sua militância revolucionária que resultou no seu aprisionamento na fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. Dalí fugiu espetacularmente para o exterior, onde permaneceu exilado por mais de quatro décadas, retornando apenas depois da Revolução de 1917, que não recebeu o seu apoio, pois previu que ela fortaleceria o papel do Estado, o qual ele queria  abolir. Apesar disso, gozou de prestígio e homenagens até a sua morte, em 1921.

Ele era um apaixonado pela contemplação da natureza e acreditava no poder absoluto da ciência. Cientificista, portanto, aceitava que as ciências da natureza e as sociais tivessem a missão de descobrir as  leis gerais  que regulassem os fenômenos e para ele a geografia era uma ciência da natureza. Permaneceu positivista e discordou que as leis dialéticas, professadas por Marx e Engels, pudessem fornecer um auxílio positivo ao progresso das ciências. Dava relevância ao processo educativo e ao papel que nele a geografia poderia assumir.

Kropotikin, conforme já vimos,  considerava a geografia uma ciência natural e entendia que ela era composta de quatro campos. O primeiro abarcaria as leis que regem a distribuição das terras e das águas sobre a superfície terrestre e as transformações que se realizam em tal distribuição; o segundo buscaria as leis explicativas da formações orográfica, hidrográfica, geomorfológica e da atuação das condições meteorológicas sobre o relevo e encarava os acidentes como partes de processos dinâmicos resultantes de interação; o terceiro estudaria a configuração e as causas da distribuição da fauna e flora sobre a superfície terrestre; o quarto, finalmente, abrangeria o estudo da distribuição dos homens pela superfície da Terra.

Admirador dos métodos de Pestalozzi, criticou o ensino de um modo geral, e o de geografia, especificamente, por ser este muito teórico, afeito a nomenclaturas e por não despertar a curiosidade dos alunos. Defendia que os mestres deveriam ensinar com o auxílio da literatura de viagens, mostrando a diversidade cultural dos povos com o objetivo de estimular intelectualmente  os jovens. Recomendava os trabalhos de campo, pois julgava que pela observação das características da paisagem haveria uma melhor compreensão da natureza, e assim, se tornaria mais aprazível a utilização dos livros didáticos, que muitas vezes, traziam informações que não poderiam ser diretamente percebidas.

Em sua opinião  não existia a neutralidade tanto na ciência quanto no ensino. Defendia que a geografia, cúmplice da antropologia, deveria contribuir para um maior entendimento entre os povos, eliminando fronteiras, promovendo a fraternidade, a paz, e a compreensão entre nações. Acreditava no desaparecimento do Estado e combatia  pela formação da juventude para a vida em liberdade, acessível a todos os homens, sem diferenças de classe, sem dominadores e dominados e governada por organizações dos trabalhadores.

Estes dois anarquistas-geógrafos, Reclus e Kropotkin, mesmo permanecendo positivistas, sofreram certa influência da dialética e empregaram categorias, como por exemplo,  classe social, nos seus estudos geográficos. Fizeram propaganda da doutrina anarquista em livros e artigos específicos, simultaneamente à composição das obras de caráter científico. As premissas filosóficas e políticas atuantes na propaganda manifestaram-se também na atividade científica. O  estudo das formas de ocupação do espaço pela sociedade, por exemplo,  fundamentava-se nas ídéias que davam sentido às suas vidas. De forma idêntica, mas em sentido contrário,  os geógrafos conservadores pensavam o espaço geográfico, consciente ou inconscientemente de acordo com as predisposições e  interesses  das classes dominantes.

Reclus tornou-se professor da Universidade Livre de Bruxelas, tardiamente, aos 64 anos e Kropotkin não aceitou lecionar na Universidade de Cambridge, pois a obtenção do cargo estava condicionada à abdicação da militância política. Nos dias atuais nota-se

“uma espécie de recuperação da obra dos dois grandes geógrafos, provocando a difusão e a discussão das mesmas. Observa-se assim que a neutralidade da Geografia, tão defendida pela escola clássica, é um mito, e que hoje à Geografia do Poder se vem contrapondo, embora de forma descontínua, uma Geografia do Povo” (ANDRADE, 1992, 62).


2.1.9.  AS CARACTERÍSTICAS DA GEOGRAFIA CLÁSSICA
No início deste trabalho, após o estudo da evolução dos conhecimentos geográficos nos primórdios dos tempos modernos,  abordamos o  período  no qual se notabilizaram os institucionalizadores desta ciência. A seguir trataremos do segundo período, de consolidação e de difusão do conhecimento geográfico, denominado período clássico, que iria de 1901 a 1946. O desenvolvimento da ciência desenrola-se de modo contínuo, apesar deste processo não ser linear e demarcar-se em etapas, que às vezes, parecem ser simultâneas. No caso da geografia, isto se faz mais presente ainda, sendo que na fase que  vamos estudar torna-se difícil uma delimitação precisa dos fatos. Posto que no princípio do século XX, estudiosos que tornaram-se respeitados ainda no século XIX, envoltos na atmosfera intelectual daquela época, continuaram suas obras, e vários dos proeminentes geógrafos clássicos iniciaram seus trabalhos ainda no século XIX,  de forma análoga aos grandes geógrafos da primeira metade  do século XX que continuaram a escrever livros importantes já no pós-guerra. Ou seja, as fronteiras entre estes períodos mostram-se relativas.

O que contrastou esta etapa da anterior, grosso modo, foi a decadência do finalismo positivista e evolucionista e a tentativa de descobrir leis, válidas universalmente, que dessem conta das diferenciações da superfície terrestre. A geografia, incapaz de extender as leis físicas ao processo de produção do espaço pelos homens, restringiu-se aos fenômenos da natureza, ou limitou-se aos estudos corológicos, de análise de paisagens e de caracterização  de formas de relacionamento entre o homem e o meio em áreas singulares, estudos estes isentos da preocupação de generalizar os seus resultados para todo o globo. A respeitabilidade da geografia regional ascendeu em prejuízo da geografia sistemática ou geral.

Em plena fase de expansão do capitalismo industrial e da premência de dados empíricos sobre o espaço produtivo, os geógrafos clássicos realizaram estudos corológicos, analisando parcelas específicas da superfície da Terra. Acreditavam que o conhecimento das partes levaria ao conhecimento do todo. Conduziram a geografia a se transformar em uma ciência idiográfica e descritiva, por meio do método indutivo, que vai do particular ao geral. Os geógrafos alemães, nos estudos regionais, descreviam e analisavam a paisagem nos seus aspectos naturais, enquanto os franceses consideravam a geografia um ciência de síntese, na qual eram consideradas tanto as características físicas quanto as transformações produzidas pelo homem. O positivismo transmutou-se em funcionalismo que contaminaria todas as ciências sociais da época. Os estudos regionais foram considerados os estudos geográficos por excelência pois neles se estudava ao mesmo tempo os fenômenos físicos e os humanos. A mera justaposição de dados naturais e sociais era vista como procedimento que revelasse a complexidade do real. A particularidade da formação do geógrafo condicionava a natureza do seu trabalho. Uma formação com ênfase na área física ou nas ciências humanas,  resultaria em trabalhos onde predominassem os aspectos naturais ou sociais, respectivamente. A ação do meio natural foi tão supervalorizada que durante muito tempo as regiões geográficas foram denominadas de regiões naturais, e se acreditava que as condições naturais determinavam os limites destas, sendo que a ação antrópica se restringiria a dividi-las em zonas. André Chollay, em 1941, promoveu um avanço ao propor as regiões como o resultado da ação dos fenômenos físicos, biológicos e humanos. A perspectiva regional separou a geografia geral ou sistemática da geografia regional, desmantelando, no âmbito do saber e da metodologia da época, a união entre o regional e o geral. Esta desestruturação promoveu uma crescente especialização, criando áreas de pesquisa isoladas, a meio caminho entre a geografia física e biológica, bem como da geografia humana. Campos verdadeiramente autônomos se consolidaram em relação a geografia física: a geomorfologia, a climatologia, a hidrologia, a fitogeografia, a zoogeografia, etc. e em relação à geografia humana: a geografia da população,  a geografia agrária,   a geografia da indústria,  a geografia da circulação e dos transportes,  a geografia econômica,  a geografia política,   a geografia social, etc. Esta fragmentação colocou em perigo a própria existência da ciência geográfica, criando incertezas mesmo em geógrafos conceituados. Este estilhaçamento foi fruto das condições da época e consolidou o empobrecimento da discussão epistemológica e metodológica no seio da ciência geográfica (MOREIRA, 1992, 37).

O enfoque regional necessitava de uma visão mais abrangente das áreas sob investigação para melhor apreendê-las, o que direcionou o geógrafo a buscar a explicitação da realidade enquanto totalidade. Aprofundaram-se as pesquisas sobre as condições naturais e os estudos das formas das organizações humanas. Estava colocada a urgência de colher em outras ciências, chamadas auxiliares, o saber imprescindível para o desvendamento  e interpretação  da paisagem e da região. Eis a origem do enciclopedismo atribuído aos geógrafos, das discordâncias entre si, das disputas de fronteira entre a geografia e outras ciências, e da celeuma entre geógrafos e cientistas sociais, de outras especializações, tais como Émile Durkheim. Esforços foram empreendidos para esclarecer as conexões entre as ciências, mostrando a convergência das mesmas, apesar das  abordagens diferentes, para um mesmo assunto ou objeto de estudo. No âmbito do positivismo, em parte renegado, combatido, mas persistindo como referência para o conhecimento científico, não havia espaço para a existência de uma ciência social única. Admitia-se um conjunto determinado de ciências com seus respectivos objetos de investigação exatamente definidos. A ciência geográfica para muitos geógrafos, inclusive Vidal de La Blache, era classificada como uma ciência natural. Este, historiador de formação, a aceitava como uma ciência dos lugares e não do homem. Muito tempo tepois é que a geografia assumiu o seu lugar entre as ciências sociais, fato de grande significação epistemológica, pois possibilita-a compreender e explicar o contínuo processo de produção e reprodução do espaço social; caso contrário abordaria apenas os resultados deste trabalho. Ao tentar cumprir a tarefa de estudar a sociedade, as relações que condicionam o  espaço produzido e explicar a materialização da sociedade sobre este espaço, a geografia se posiciona estrategicamente no centro dos acontecimentos da atualidade.

A Geografia Clássica prosperou porque, apesar da sua debilidade,  atendia, de uma forma ou de outra,  à demanda das classes dominantes no seu projeto de exploração da natureza e dos homens. Como cada país fosse constituído por especificidades, para melhor serví-los a Geografia Clássica subdividiu-se nas chamadas escolas nacionais ou até regionais. Entraram em cena, desta maneira, as escolas alemã, francesa, britânica, soviética, americana, etc. Elas convergiam seus estudos na direção dos interesses dos seus respectivos países e buscavam soluções, diretrizes e justificativas para os mesmos. Na Alemanha legitimariam a conquista do espaço vital; na França e na Grã-Bretanha forneceram conhecimentos estratégicos aos seus impérios coloniais; nos Estados Unidos e na Rússia  justificaram e auxiliaram na consolidação do domínio de áreas habitadas por outros povos. As escolas, como foi visto, estavam imbuídas de nacionalismo patriótico e inteiramente compromissadas com a política dos governos a que serviam (ANDRADE, 1992, 67).

Considerando os objetivos deste trabalho, abordaremos para efeito de exemplificação, apenas as características que julgamos essenciais das escolas francesa e alemã, e principalmente o relacionamento entre elas.



2.1.10.   AS ESCOLAS ALEMÃ E FRANCESA
Na Alemanha viveram os dois proeminentes geógrafos, considerados de forma quase unânime, como os fundadores da geografia moderna, Humboldt e Ritter, além de  Ratzel, de inequívoca importância. Neste país a geografia também se institucionalizou primeiro. Levando-se tudo isto em conta, além das características específicas do seu desenvolvimento, mencionadas anteriormente,  é compreensível que em território alemão tenha ocorrido o aprofundamento dos estudos geográficos, que nele tenham surgido os destacados geógrafos do período clássico e que as concepções germânicas tenham se espalhado para outros lugares, até mesmo pelos Estados Unidos.

No período clássico verificaram-se inúmeras tendências na geografia alemã, tais como o estudo das paisagens, onde se valorizava mais o natural que o social; os estudos de interesse político, em obras de geografia e também de geopolítica, destacando-se Haushofen, que legitimou o expansionismo alemão; na área econômica, sob perspectiva naturalista, os estudos de geografia tropical além de outros estudos de geografia econômica; os estudos de teoria da localização, destacando-se, na década de 1930, Walter Christaller, com sua teoria do lugares centrais. O debate sobre sua obra nas décadas de 1960 e 1970 ocasionou o nascimento da geografia quantitativa e a valorização dos métodos matemático-estatísticos, significando um retorno ao positivismo e fortalecendo a escola neopositivista moderna (ANDRADE, 1992,69).

Paul Vidal de La Blache, primeiro geógrafo francês a assumir uma cátedra universitária de geografia, foi o personagem principal da escola francesa, constituída na primeira metade do século XX. Quando a França foi derrotada pela Alemanha em 1871, muitos explicaram o fato tendo em vista a alegada superioridade do ensino alemão sobre o ensino francês. Afirmava-se que a guerra havia sido ganha pelo mestre-escola alemão. A França derrotada, arcando com uma catastrófica dívida de guerra, sofrendo a perda da Alsácia e parte da Lorena, buscou uma recuperação. O Governo Republicano que sucedeu ao II Império, dentre outras medidas,   promoveu a reorganização do ensino e as disciplinas da geografia e da história ganharam destaque no nível secundário (ANDRADE, 1992, 69).

A derrota na guerra contra a Alemanha tornava imperativo para a classe dominante francesa pensar o espaço, de construir uma geografia que desautorizasse as concepções alemãs e, paralelamente,  fundamentasse a expansão do capitalismo francês.

Se a geografia de Ratzel referendava a política imperialista do Estado alemão, era urgente para a França a necessidade de contestá-la. A geografia francesa foi engendrada por esta urgência. Vidal de La Blache, em interlocução com o pensamento de Ratzel, foi o catalizador deste processo, que resultou no deslocamento do centro da discussão geográfica da Alemanha em direção à França. Ratzel só pode ser entendido no contexto histórico alemão, a geografia de Vidal de La Blache, por sua vez, torna-se compreensível quando vista no âmbito da Terceira República, em relação à disputa com a Alemanha, e levando-se em conta as especificidades históricas francesas.

Ratzel e La Blache, por meio da produção científica, foram veículos dos propósitos das classes dominantes de seus respectivos países. Muitas das peculiaridades destas produções foram condicionadas pelas diferenças do desenvolvimento capitalista em solo francês e alemão. A perspectiva de Ratzel expressava o autoritarismo presente na sociedade alemã; ao privilegiar o Estado nos seus estudos apenas dava relevância ao elemento social hegemônico atuante na própria realidade local. A ótica de La Blache, mais liberal, de acordo com a evolução  francesa, provinha da noção abstrata de homem do liberalismo. Desta discrepância partiram as críticas de La Blache à obra de Ratzel e o que tornou possível a execução  da tarefa intelectual destinada à geografia pelas classes dominante francesas.

A clara politização do pensamento de Ratzel foi criticada por La Blache. Ou seja, referia-se ao fato das colocações ratzelianas abordarem explicitamente os temas políticos. Reprovou a conexão direta entre o pensamento geográfico e a tomada de posição política efetiva, sob a alegação do caráter neutro da atividade científica. Assim, confrontou-se com a propaganda do expansionismo alemão impressa na obra de Ratzel. Esta suposta defesa da neutralidade da ciência no entanto não foi obstáculo para que a geografia vidaliana promovesse  a justificação ideológica dos interesses da França. Apenas o fez de forma oblíqua, ao contrário de Ratzel. A idealização da autonomia da ciência e uma falsa despolitização da geografia são legados importantes da escola francesa. Esta camuflagem do contéudo político da atividade científica era proveniente do retrocesso do pensamento burguês, que após a tomada do poder, encontrava-se receoso da ocorrência de mudanças na sociedade que poderiam ser estimuladas pelo desenvolvimento das ciências do homem. La Blache promove a aparente separação entre o conhecimento e a sociedade, negando o compromisso deste com a prática dos homens, e portanto, encobrindo o seu caráter ideológico. O conceito de espaço vital de Ratzel foi combatido com tenacidade, e por meio desta disputa, enfrentava-se o expansionismo germânico propriamente dito. No entanto, se La Blache desqualificou a geopolítica foi para elaborar algo mais condizente com os interesses da França: uma especialização denominada geografia colonial.

La Blache contestou o lugar subalterno que era relegado ao homem na obra ratzeliana. Valorizou a história, a liberdade,  enaltecendo a criatividade da ação humana, que não seria apenas uma resposta à natureza. Esta concepção constitui a melhor herança de La Blache à geografia, apesar deste autor não ter se afastado totalmente da visão naturalista. Uma  declaração de sua autoria diz que a geografia seria uma ciência dos lugares, não dos homens. Assim, o objeto de análise seria apenas o resultado da práxis humana na paisagem, e não o processo propriamente.

La Blache contestou a idéia da determinação da história pelas condições naturais. Defendeu uma perspectica relativista no que se refere às relações entre o homem e a natureza, afirmando que tudo que é relacionado ao homem seria mediado pela contingência. Este ponto de vista, referendado pelos seus discípulos, tornou a geografia francesa impossibilitada de qualquer generalização. Ao criticar o determinismo naturalista de Ratzel, a concepção de La Blache ofuscou a existência de qualquer outra determinação.

Partindo das idéias anteriormente relatadas, engendradas pela sua interlocução conflituosa com Ratzel, La Blache desenvolveu  o cerne do pensamento geográfico da escola francesa (MORAES, 1981, 67).

Muito próximo do poder de Estado, La Blache disseminou os princípios que orientaram, grosso modo,  a geografia na França, empurrando para a obscuridade a obra de Reclus, até então popular. A Geografia de Estado, oficializada nos meios acadêmicos e ligada aos setores conservadores ocupava o seu espaço. Principalmente numa época em que se consolidara o Império Colonial Francês.

La Blache deu relevância aos trabalhos de campo, valorizou a intuição e não se preocupava com teorizações globalizadoras. Opôs o regional ao geral, orientando seus alunos a realizar pesquisas sobre áreas restritas, levando em consideração os  aspectos físicos justapostos aos aspectos humanos e econômicos. Estimulou tanto os estudos regionais, que seus discípulos entendiam geografia como um sinônimo daqueles. A pretendida integração entre o físico e o humano, de fato se limitava a uma superposição.

O conceito de gênero de vida seria entendido como um complexo integrado de ações que, perenizadas pelo força do hábito, mostrariam a adaptação, ou seja, as reações dos seres humanos diante dos obstáculos do meio geográfico. Este conceito assemelha-se à noção de cultura, e por outro lado, conduziria a uma perspectiva rural, desprovida de dinamismo, enquanto nas ciências sociais, de um modo geral,  assumia relevância a categoria de classe social. La Blache enfatizou o estudo das comunicações para que se percebesse a relação entre os gêneros de vida e as regiões, principalmente rurais, e as aglomerações urbanas que se desenvolviam e chamavam atenção.

A proposta lablacheana coesionou e conferiu homogeneidade aos geógrafos franceses, apesar de algumas divergências, dominou por décadas a França e foi exportada para o exterior, sobretudo Grâ-Bretanha, chegando inclusive ao Brasil. Após a Segunda Grande Guerra sofreu adaptações na medida em que o geógrafo foi chamado a contribuir para a reconstrução, o planejamento, e foi obrigado a dar mais valor ao papel da indústria e da cidade na construção e reestruturação espacial (ANDRADE, 1992, 74)

2.1.11. O LEGADO  DA GEOGRAFIA CLÁSSICA
De um modo geral, podemos afirmar que a Geografia Clássica legou um arcabouço científico constituído, um conjunto de saberes organizados, com homogeneidade intrínseca e inequívoca continuidade nas discussões. Deixou conceitos, que apesar de controversos, caracterizaram uma área comum de pesquisa, consolidando a independência de uma disciplina. Nesta trajetória,  independente de como o interpretou, construiu um temário que permaneceu como a sua melhor contribuição. Sua façanha foi a apresentação de problemas válidos, a formulação de perguntas legítimas, mesmo que os equacionamentos e respostas apresentados possam ser considerados completos equívocos.

A Geografia Clássica, apesar dos procedimentos metologógicos utilizados, também reuniu um valioso conjunto de dados empíricos e de mapas, resultado de uma observação minuciosa de áreas específicas. Esta compilação não pode ser menosprezada, pois pode subsidiar pesquisas posteriores, comprovando a utilidade das técnicas de descrição e de representação. E, por fim, a Geografia Clássica construiu conceitos, tais como território, ambiente, região, habitat, área, dentre outros, que exigem ser repensados (MORAES, 1981, 92).



2.1.12.  A CRISE DA GEOGRAFIA CLÁSSICA
A Segunda Guerra Mundial destruiu as atividades econômicas, arrasou um grande número de cidades e colocou abaixo antigos valores na maior parte da Europa. Face à necessidade de reconstrução, urgia estruturar o planejamento, sob as diretrizes políticas do Estado burguês. Abriram-se novas oportunidades de trabalho para os cientistas sociais que eram convocados a diagnosticar e planificar tendo em vista metas e prazos determinados. Este desafio, repercutiu nos geógrafos envolvidos, provocando a revisão dos conceitos científicos e abrindo o debate sobre o futuro da ciência geográfica.

Em meados da década de 1950 começou a aflorar a crise da Geografia Clássica, que depois se precipitou e ganhou vulto nos anos seguintes. Na década de 1960 a crise já era um fato consumado,  e após os anos 80,  o obituário do pensamento geográfico clássico já estava pronto. Os seus vestígios que ainda teimavam em existir foram considerados como anacronismos. Estava aberto um período de constestações, debates e alternativas para a ciência geográfica. O tempo da relativa homogeneidade no seio da Geografia Clássica havia se esgotado e novas perspectivas metodológicas pediam passagem. A crise foi necessária, pois permitiu exorcizar o passado da geografia que teve sempre “um peso maior do que as expectativas criadas” (SANTOS, 1978, 85).

Tentaremos, a seguir,  alencar os motivos principais da decorrada da Geografia Clássica. Em primeiro lugar, os fundamentos econômicos e sociais que possibilitaram o seu nascimento haviam ruído. A realidade mudou deixando para trás  a todos que foram incapazes de acompanhá-la, inclusive a geografia. Superada a fase da concorrência entre as empresas médias, havia chegado a hora dos trustes, dos monopólios, do grande capital. A revolução tecnológica, um divisor de águas formidável, demarcava o limite entre as duas eras. A crise  de 1929 aposentou o liberalismo econômico e exigiu a intervenção estatal, abalando a livre iniciativa e a propalada auto-regulação do mercado. Defendia-se a ingerência do Estado na administração e planejamento da realidade econômica, além do claro propósito de autorizá-la na organização territorial. A urgência do planejamento ordenava que as ciências sociais se travestissem em técnicas. A Geografia Clássica, ferramenta inútil,  foi relegada ao passado.

Em segundo lugar, a cidade, o campo e suas relações recíprocas foram abaladas com o impacto do crescimento dos níveis de urbanização  e pela industrialização e mecanização das áreas rurais. Definhavam as comunidadas inteiramente isoladas e se interconectavam cada vez mais os lugarejos, as cidades, as  metrópoles, as megacidades e as megalópoles. O lugar, por si só,  não tinha mais explicação e o que ele fosse, talvez tivesse sido definido, em outro lugar, do outro lado do mundo.  O capitalismo das empresas multinacionais, o capitalismo dos transportes e das comunicações intercontinentais, enfim, o capitalismo mundializado  estavam transformando  o espaço, em espaço geográfico globalizado. A aldeia global estava sendo antevista e as técnicas descritivas, de representação e  de pesquisa da  Geografia Clássica não mais a enchergavam. O Globo estava tornando-se único, ao mesmo tempo múltiplo,  e muito mais complicado. O espaço escrito pela economia global pedia uma nova linguagem, uma nova metodologia, pedia, enfim, uma nova geografia. Um salto foi tentado: o que ia direto das técnicas de pesquisa de campo do século passado  para o sensoreamento remoto, as imagens de satélite e os dados informatizados. Eis o vislumbre de uma Nova Geografia que acabou se revelando, apesar do aparato, tão antiga quanto a Geografia Clássica.

Em terceiro lugar, o positivismo clássico, fundamento da geografia, exposto ao novo mundo, revelou-se igualmente defasado. Este método, criticado internamente por seus defensores, passara por reformulações, ignoradas pela geografia, e tentara obter uma recuperação. O desenvolvimento científico e a reflexão filosófica tolheram suas pretensões, considerando-as ingênuas. A intrínseca complexidade dos novos fenômenos e a sofisticação do novo instrumental de pesquisa só confirmaram a sua crise, que do outro lado do espelho,  também seria a crise da geografia.

Finalmente, o declíno do pensamento geográfico clássico pode ser atribuído à fragilidade interna. Ou seja, a existência no cerne da disciplina de deficiências de formulação, lacunas lógicas e imprecisões. O movimento de renovação da geografia  ressaltou tais problemas em detrimento de um debate mais profundo que melhor esquadrinhasse a natureza da crise, os motivos anteriores e os inconfessáveis vínculos sociais da geografia. De qualquer forma estas questões internas irresolvidas também deram sua contribuição para a queda da Geografia Clássica.

O pensamento geográfico clássico foi responsabilizado e duramente criticado, pela persistência do problema da “indefinição do objeto de estudo” (MORAES, 1981, 96). Esta carência que acompanha a disciplina desde o seu nascimento, municiava o ataque de outros ramos científicos contra a legitimidade da geografia.

Outra falta apontada contra o pensamento geográfico clássico foi a incapacidade deste de elaborar leis gerais. Estas, quando formuladas, revelavam-se insuficientes, mecanicistas, arbitrariamente deterministas ou existiam em detrimento  da unidade da disciplina. De qualquer forma, aquela geografia, supostamente de síntese,  que tinha pretensões de abarcar tanto os fenômenos humanos quanto os da natureza, acabava por se limitar ao estudo de áreas individualizadas. A inexistência de generalização ocupava o centro da crise da Geografia Clássica, segundo os seus detratores. A indefinição do objeto de estudo e a inexistência de generalização imbricavam-se nas dicotomias próprias desta ciência: geografia física e geografia humana, geografia regional e geografia geral, geografia sintética e geografia tópica. Quando se resolvia, ou se pensava resolver, um dos dilemas, descobria-se que outro permanecia sem solução.

O descontentamento com a Geografia Clássica tornou-se unâmime, mas a amplitude das críticas, não. Vários estudiosos vão se deter nas razões formais, outros irão além, procurando as causas efetivas nas estruturas sociais e no papel ideológico desta disciplina. Desta forma, no movimento de constestação, ocorrerá uma diversidade de perspectivas filosóficas, metodológicas e políticas, muitas delas excludentes.

2.1.13. A PROCURA DE NOVAS TRILHAS
Dentre as várias influências teóricas que forçavam a renovação do discurso geográfico, segundo Amorim Filho, tiveram destaque a teoria geral dos sistemas, o estruturalismo, as bases teóricas da cibernética, a teoria dos conjuntos, a teoria dos jogos e as bases teóricas da comunicação (AMORIM FILHO, 1985,13). Na gênese da teoria geral dos sistemas estaria o positivismo organicista e na origem do estruturalismo, um revisionismo marxista de dimensões antropológicas, segundo Andrade (ANDRADE, 1992, 105). Observava-se o crescimento do prestígio das formulações matemáticas e estatísticas  e das metodologias quantitativistas que promoviam a abstração e teorização do conhecimento geográfico. Os procedimentos dedutivos entram em evidência em prejuízo da tradicional perspectiva  indutiva da geografia.

O debate que se seguiu demonstrou a falácia da neutralidade científica. Algumas tendências de renovação da geografia ao pretenderem que esta disciplina se mantivesse intelectualmente distante das opções políticas e ideológicas, acabaram por servir, de uma forma ou de outra, aos desígnios do capital. A matemática, a estatística, as técnicas, enfim, não conseguiram  escapar da ideologia. É o que veremos, a seguir, em relação às principais correntes teórico-metodológicas que sucederam a Geografia Clássica.

2.1.14.  AS GEOGRAFIAS QUANTITATIVA, SISTÊMICA E DA PERCEPÇÃO
No campo das concepções que não aprofundaram as críticas ao papel conservador da geografia, mas de uma forma ou de outra, o reforçaram, destacaram-se as chamadas Geografia Quantitativa, Geografia Sistêmica e a Geografia da Percepção.

Já não era suficiente para a lógica capitalista a simples coleta de dados e a justificação do seu desenvolvimento. A expansão dos negócios exigia uma ciência que  oferecesse  alternativas de localização  e monitoramento da alocação de recursos em todos os quadrantes do globo. A Geografia Quantitativa veio para cumprir esta tarefa e se alastrou com desenvoltura, seguindo a  mundialização do capital. Seu nascimento nos Estados Unidos apresenta uma ligação direta com a supremacia global do capitalismo americano. Seu aspecto cosmopolita, ao contrário das escolas nacionais, acompanha o crescimento da importância das empresas multinacionais. Para os defensores da Geografia Quantitativa os fenômenos sobre os quais a disciplina se debruçava poderiam ser  traduzidos integralmente pelos métodos matemáticos. Todo  o universo da geografia poderia ser reduzido a números e apreendido na forma de cálculos. A estatística e a computação poderiam explicar a paisagen. A descrição desta cede lugar à sua matematização. As formas individualizadas são substituídas pela tipologia, tudo sob o manto asséptico da matemática estatística. A descrição subjetiva é suplantada pelo rigor do discurso matemático. A técnica torna-se visão de mundo. Resumindo tudo, o positivismo lógico assume o lugar do positivismo clássico. Vejamos como Santos contextualiza a situação:

“Havia, já então, os instrumentos indispensáveis para dar ao novo enfoque as condições de factibilidade. Tais condições instrumentais eram, para começar, um resultado dos progressos obtidos pelas ciências exatas, tanto por causa das necessidades da própria guerra, como em resposta às exigências de uma nova organização da economia, tornada possível após o término da guerra. Além disso, e influindo muito mais que as condições instrumentais, as necessidades do novo período da história do capitalismo internacional iam exigir que as ciências do homem se adaptassem e se acomodassem.” (SANTOS, 1978, 74).



De fato, a linguagem matemática que desembarca na geografia,  pelos anos sessenta, depois de já ter contaminado outras ciências sociais, revela-se inteiramente contemporânea às transações internacionais. A necessidade de contabilizar  um monumental e crescente universo  de trocas  impulsionará a matemática. Esta, integrada ao desenvolvimento da tecnologia, sobretudo à informática, permitirá que o capitalismo exerça sobre a natureza e os povos um controle jamais visto. E a Geografia Quantitativa, exatamente, contribuirá para a total realização desta tarefa.

A Geografia Sistêmica, que é complementar à anteriormente citada, defende o emprego de modelos de representação ao estudo dos fenômenos geográficos. Considera-se um aperfeiçoamento em relação à Quantitativa, pois se diz portadora de um nível de generalização mais amplo. Segundo Moraes, “Os modelos seriam representações das estruturas fundamentais da organização do espaço, assim as articulações tidas como constantes em todos os casos singulares.” (MORAES, 1981,104). Estes modelos desempenham nas pesquisas o papel de hipóteses lógicas a priori, sendo compostos de dados permanentes, ou fatores, e de elementos agregados, ou variáveis. O cientista deve se ater às especificações do modelo, tentando incorporar neste os dados da realidade estudada, introduzindo as variáveis que expressem as particularidades da mesma. Os dados constantes e os variáveis, entrelaçados em programas específicos de computação resultarão em padrões e tendências. Este modelos seriam construções teóricas com um grande nível de abrangência, de validade universal. Os modelos fundamentam-se na crença de que os fenômenos são articulados como sistemas. Ou seja, relações de elementos estruturados por fluxos. Os modelos buscariam exprimir a estrutura dos sistemas, sendo que a sua variedade seria consoante com a própria diversidade do real. A utilização dos modelos possibilitaria a seleção dos elementos de estudo e o  entrelaçamento destes segundo critérios do cientista. O aprofundamento da pesquisa poderia prosseguir com a introdução de outras variáveis. Assim,  o sistema poderia se tornar cada vez mais complexo. Santos, em seu importante livro,  argumenta que conceber o espaço como um sistema não seria suficiente. Pois,  seria preciso definir anteriormente, o que seria um sistema. Tendo em vista que a definição clássica que afirmaria que “um sistema seria um conjunto de elementos e de relações entre esses elementos e entre seus respectivos atributos”, não seria uma definição que possibilitasse a análise espacial (SANTOS, 1978, 60). Posto que os elementos em suas relações recíprocas teriam que ser considerados em sua conexão com a totalidade.  O conhecimento efetivo de um espaço não está presente em suas relações, mas nos processos, e a análise de sistemas minimiza este fato. Talvez porque tenha sido criada especificamente para interagir com modelos matemáticos. A aplicação mecânica dos modelos é resultante da transformação dos conceitos em categorias congeladas, que  imobilizadas, paralizam a história e retroagem a ciência. “A partir do momento em que se esquece tudo isto e se aplica modelo congelado, para explicar uma realidade em movimento, trata-se de uma violência metodológica pura e simples, cuja aplicação não pode conduzir à realidade científica e sim ao erro.” (SANTOS, 1978, 60).

A Geografia da Percepção, de um modo geral, dentre outros temas,  tenta compreender como o indivíduo percebe o espaço ao seu redor, como responde às características do meio,  como se processa este conhecimento, e como tudo isso se espelha na atuação sobre o espaço. Os seus defensores trabalham a questão da valorização subjetiva do território, a apreensão do espaço cotidiano e os padrões de comportamento em relação ao meio. A psicologia social, principalmente a behaviorista,  fornece um dos  seus  fundamentos teóricos.  Os estudos realizados tratam do comportamento do indivíduo nas cidades, em relação às áreas de lazer; a atuação das formas espaciais na produtividade do trabalho; a interação da sociedade com o meio natural, materializadas nos parques; a reação diante de novas técnicas agrícolas em comunidades específicas; as modalidades de representação espacial em comunidades indígenas (MORAES, 1981,106).

A Geografia da Percepção, que não tem unidade interna, apesar das expressivas divergências, tem se expandido. Assumindo uma perspectiva de valorização do indivíduo, e muitas vezes, não o inserindo em um contexto social mais abrangente, acaba por menosprezar alguns condicionantes  do comportamento individual. Além disso, revela-se conservadora, ao supervalorizar a subjetividade. Fortalece, assim, a noção de que a apreensão do real se refere exclusivamente ao sujeito e não mais ao objeto; dissemina a crença de que o comportamento seria impermeável às determinações sociais, como se as atitudes individuais somadas representassem a totalidade da práxis social; e, finalmente, torna obscura a atuação da ideologia sobre o comportamento do indivíduo. Portanto, verifica-se que  esta corrente encaminha-se para a aceitação da ordem vigente. Mas, segundo Capel, a Geografia da Percepção, ao colocar em pauta a subjetividade, teve o mérito de tornar claro as insuficiências dos modelos teóricos desenvolvidos pela Geografia Quantitativa, a respeito da localização espacial. Além do mérito de, a seu modo, ter aberto o caminho paras as chamadas Geografias Radicais ou Críticas (CAPEL,1983,422-3).

2.1.15.  A GEOGRAFIA ECOLÓGICA
A degradação ambiental  tornou-se também  um sério objeto de preocupação dos geógrafos. Muitos superaram as pesquisas específicas sobre geomorfologia, climatologia, hidrologia, etc., para assumir um enfoque mais amplo sobre o meio ambiente. Ou ainda, ao prosseguirem os estudos em suas áreas, o fizeram levando em consideração a reação da natureza quando submetida à ação antrópica. O geógrafo francês, Jean Tricart, reformulador da geomorfologia, sob inspiração da dialética, escreveu um livro no qual apresenta a visão global de uma geografia ecológica, além de Paskoff, depois de muito tempo pesquisando na Tunísia áreas desérticas, ou em processo de desertificação, elaborou uma obra geográfica sobre o tema. A preocupação ecológica é mais intensa entre aqueles que estudam os desertos ou regiões semi-áridas, tendo em vista o crescimentos destas, muito vezes provocado pelo uso irracional da terra. A Geografia Ecológica também se preocupa com a devastação das florestas equatoriais em decorrência da exploração de produtos nativos, a implantação de projetos agropecuários,  o cultivo de culturas temporárias e pela atuação das frentes pioneiras, processos que, de forma isolada ou  somados, colocam em risco a integridade da fauna e flora originais.

No âmbito da Geografia Ecológica não existe unidade de pensamento sobre as soluções alternativas frente a destruição do meio ambiente. O que a unifica é a defesa da preservação da natureza, o combate ao desenvolvimentismo e ao economicismo. Sob muitos aspectos ela encontra-se mais próxima dos denominados geógrafos críticos, sob outros, ela se liga aos defensores da Geografia da Percepção (ANDRADE, 1992, 121).

2.1.16.  AS GEOGRAFIAS CRÍTICAS
A partir da década de 1950  uma série de abalos sociais e econômicos vão repercutir profundamente nas ciências do homem. Ou seja,  o fim da Guerra Fria, trazendo uma política de coexistência pacífica, amenizou a tensão ideológica entre as superpotências e possibilitou a existência do pensamento marxista no mundo ocidental; as transformações econômicas, sociais e políticas nos países do Sul; a perda de legitimidade da supremacia ocidental,  inclusive com o processo de independência dos países coloniais; o Movimento dos Países não Alinhados (Bandung, 1955), onde se reivindicou uma participação maior destes na agenda internacional; a Conferência Mundial de Comércio (Bruxelas, 1964), na qual ganharam visibilidade muitos problemas sociais e econômicos do chamado subdesenvolvimento, impactando a economia e outras ciências sociais. O denominado subdesenvolvimento foi estudado sob outro ângulo, agora tendo em vista as conseqüências do domínio do capital e as relações necessárias entre atraso econômico, dependência e mercado global. Acontecimentos históricos como  a Revolução Comunista na China, o Movimento pela Paz, a independência de países na África, com a implantação de regimes que se prentendiam socialistas e a Revolução Cubana reorganizaram o mapa do mundo e aprofundaram a crise de hegemonia européia e norte-americana.

A crise explodiu nos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Os protestos em massa revelaram um  descrédito crescente nas qualidades do chamado american way of life. Uma nova perspectiva permitiu que as ciências sociais enfocassem  os problemas da dependência econômica e tecnológica, da hegemonia das potências do ocidente e do desenvolvimento capitalista periférico. Os novos problemas exigiram das ciências sociais respostas inéditas, que só poderiam ser formuladas sob uma nova visão ideológica. Nos anos 60 manifestou-se uma grande insatisfação no conjunto das ciência sociais. O neopositivismo foi avaliado como anacrônico e incapaz de apreender o movimento do real. A fenomenologia e o existencialismo foram valorizados no intuito de tornar relevante a dimensão subjetiva e as experiências pessoais. A geografia não permaneceu alheia a esta atmosfera e, assim, revigorou-se, parcialmente o legado historicista da disciplina (FERREIRA & SIMÕES, 1992, 92).

De forma simultânea às transformações globais, internamente fez-se necessário outras respostas. Em oposição ao capitalismo e às péssimas condições de vida e de trabalho, ocorreram, inúmeras rebeliões de massa nas cidades. As instituições governamentais com o propósito de levantar informações a fim de controlá-las, convocaram os serviços das diversas  ciências sociais que foram estimuladas a contribuir na solução destes problemas. Além disso tudo,  agigantou-se a consciência  do processo de destruição ambiental do planeta e floresceram os movimentos ecologistas. A Razão  que veio à luz em decorrência da revolução científica do século XVII começou dar sinais de enfraquecimento. Os cientistas questionaram o lugar da ciência, as implicações do uso da tecnologia e os fundamentos éticos de ambas. Os princípios do positivismo clássico e do positivismo lógico foram abalados e a ciência começou  perder a aura de única forma de saber legítimo. A racionalidade científica e os valores deveriam ser harmônicos, posto que se defendeu que a ciência deveria buscar resultados com relevância social.

O meio acadêmico norte-americano, por volta de 1965, afastou-se do neopositivismo, rejeitou a ilusão da neutralidade científica e a ideologia tecnocrática, condenou o uso irracional da ciência e o seu autoritarismo, bem como a cooptação ao sistema social por meio da escola. As  chamadas reformas revolucionárias estavam na ordem do dia.  A partir do final dos anos 50 e na década seguinte proliferaram em todas as áreas científicas as correntes críticas, que se autodenominaram como radicais. Sendo que a economia e a sociologia foram as primeiras disciplinas que enveredaram por esta direção.

Deste modo, seguiram este caminho, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, as demais ciências, tais como a antropologia, a ciência política, o urbanismo, a psicologia e o direito. O propósito da maioria dos cientistas foi a interlocução com a teoria marxista, visando a elaboração de  explicações alternativas às concepções tradicionais. Desta forma,  estava se consumando o divórcio com o pensamento neopolitivista (CAPEL, 1983,407).

A Escola de Frankfurt, declaradamente antipositivista, ao desenvolver a chamada Teoria Crítica, consolidou o radicalismo nas ciências sociais. O seu projeto principal foi o estabelecimento de uma base única para o conjunto das ciências do homem, unindo teoria e prática, a partir do marxismo.

A década de 1960 foi repleta destas mudanças de atitude. Vários filósofos e cientistas sociais rejeitaram as teorias fundamentadas nos parâmetros das ciências da natureza. Ou seja, recusaram a extensão destes princípios às ciências do homem. Semelhante a todas as ciências sociais, a geografia também foi influenciada por estas transformações.

A Geografia Crítica, forjada a partir desta época,  não possui unidade de concepção e não constitui uma escola. Encontraram-se  neste campo aqueles geógrafos que  tomaram conhecimento das graves contradições da sociedade e perceberam, por sua vez,  que toda ciência de uma forma ou de outra, está profundamente comprometida  com  a perpetuação  ou com a mudança do status quo. A neutralidade da ciência seria uma ilusão, uma maneira de ocultar os verdadeiros vínculos políticos e sociais. Compreenderam,  ainda, que não bastavam as críticas epidérmicas feitas aos problemas da sociedade, e que o prioritário seria ir ao cerne destes, ou seja, ir às suas  raízes. Eis a explicação porque se autodenominaram radicais,isto é, na análise dos fenômentos sociais tentam buscar suas causas profundas, não obscurecem os seus compromissos ideológicos,  e nem mesmo tentam se esconder sob a alegada neutralidade científica.

Neste campo nota-se três subdivisões: a corrente integrada por geógrafos não-marxistas, mas compromissados com mudanças sociais; a dos geógrafos de filiação anarquista, defensores de uma transformação libertária,  ligados ao pensamento original de Reclus e Kropotikin. E, finalmente, os geógrafos de formação marxista. Observa-se neste último grupo aqueles que reconhecem Marx como um filósofo e buscam aplicar seu pensamento na análise das situações em estudo. Preocupam-se com a questão da totalidade, ressaltam as características das formações  econômico-sociais e dos modos de produção, sem esquecer, no entanto,  que não pode haver transplantação mecânica de determinados conceitos tendo em vista as épocas e locais diferentes. Outros, ao contrário, assumem o marxismo como uma doutrina e aplicam sem mediação alguma, para todos os continentes,  as categorias de Marx no estudo dos fenômenos contemporâneos. Traduzem a filosofia de Marx sob uma ótica neopositivista, negando o seu caráter dialético. Por isso, cada vez mais se aprofunda a distância entre os chamados marxistas ortodoxos e os heterodoxos (ANDRADE, 1992, 123).

A influência do marxismo sobre o pensamento geográfico nos Estado Unidos manifestou-se quando um grupo de geógrafos adeptos da Geografia Quantitativa compreendeu a ineficácia de suas técnicas e o real significado da responsabilidade assumida com o desenvolvimento do sistema capitalista. Descobriram que as pesquisas que indicavam a localização ideal para a implantação das indústrias, as formas mais adequadas de organização do espaço no campo e na cidade, não eram simplesmente de ordem técnica e tinham conseqüências sociais maléficas, ao contrário do que pensavam anteriormente. Pois estas conseqüências estavam diretamente relacionadas à própria lógica de acumulação do capital. Este radicalismo, então incorporado,  fez com William Bunge, por exemplo,   perdesse os seus postos de trabalho em Detroit e em Toronto, forçando-o a transformar-se em motorista de taxi; David Harvey, por sua vez, renegou os seus antigos companheiros da Geografia Quantitativa e ocupando importantes cargos acadêmicos, produzindo em inglês, com fácil penetração na mídia, fez avançar a geografia sob inspiração marxista. Harvey, que era positivista em 1969, caminhou rapidamente em direção ao marxismo, revisando seus pontos de vista anteriores, e logo após, tornou-se, enfaticamente, marxista. Desenvolveu-se, então, sob a influência do marxismo nos Estados Unidos três movimentos simultâneos e convergentes: o das expedições geográficas, o da publicação da revista “Antipode” e o da fundação da União dos Geógrafos Socialistas.

As expedições geográficas foram idealizadas por Bunge em Detroit, onde atuava no ensino universitário e morava nas proximidades do bairro negro de Fitzgerald. Bunge demonstrou interesse pelos problemas desta localidade e começou a investigá-la e estabelecer contato com sua população. Constatou  que alí a qualidade de vida era muito baixa e que as demandas dos seus moradores não eram consideradas pelos geógrafos e urbanistas nos levantamentos realizados para os departametos do governo. Concluiu que deveria haver uma inversão de prioridades tendo em vista as reivindicações das populações que iriam ser atingidas. Organizou grupos de professores e alunos de geografia que se deslocavam até o bairro, reuniam com seus habitantes, na sua maioria de baixa renda, e levantavam suas necessidades, as suas reivindicações e também os resultados das intervenções oficiais anteriores. A partir deste trabalho, Bunge, organizou cursos livres de grande aceitação entre universitários e populares. Elaborou uma obra a respeito do bairro e sobre a experiência realizada, provocando reações conservadoras que culminaram na sua demissão da universidade e na proibição dos seus cursos. Não havia interesse, por parte destes meios acadêmicos de uma maior aproximação com o povo e nem mesmo haveria a possibilidade se admitir nos seus quadros alguém que não fosse comprometido com a situação vigente. Bunge transferiu-se para a Universidade de Toronto onde seus métodos tiveram continuidade. Suas concepções marxistas mostraram-se incompatíveis à burocracia dirigente do ensino superior do Canadá, e novamente desempregado no meio universitário,  transformou-se em motorista de taxi, militando no movimento sindical, teria afirmado que a nova profissão seria ideal para um geógrafo, pois como taxista, conheceria melhor a cidade na qual vivia e lutava.

A revista “Antipode” veio à luz a partir de 1969 com o propósito de divulgar os trabalhos e as expedições geográficas de Bunge. Representava  uma perspectiva crítica radical, inteiramente contraposta tanto à Geografia Clássica quanto à Geografia quantitativa. Alcançou sucesso e estimulou os seus editores, não só pela questão do retorno financeiro, mas,  principalmente por ser uma porta aberta aos novos geógrafos. A maioria de seus colaboradores havia sido dos quadros da Geografia Quantitativa. Depois de 1974, consolidaram-se a busca de um direcionamento filosófico e ideológico e o desejo de ampliar as pesquisas para o mundo subdesenvolvido, no qual as injustiças sociais e os prejuízos do domínio capitalista eram mais visíveis. A mudança da linha editorial, agora declaradamente marxista, provocou uma diminuição da sua influência nos meis acadêmicos, dominados pela reacionária Associação dos Geógrafos Americanos. “Antipode” teria quatro funcões básicas: ser um canal de comunicação e idéias; desempenhar um papel didático;  abrir  espaço para a crítica e ser um instrumento de divulgação de trabalhos de investigação teórica e prática inovadores. Dentre os assuntos recorrentes destacam-se os problemas de desenvolvimento e seu interesse geográfico, a economia política urbana, os problemas ecológicos, a habitação, a planificação, os problemas pedagógicos etc. As Universidades de Clark, de Vancouver e de Londres, são o pólos de difusão das suas propostas.

A União dos Geógrafos Socialistas, fundada em 1974, é uma associação que não tem perfil político-militante e nem mesmo profissional. Abriga nos seus quadros os interessados pela geografia e pela mudança da sociedade. Desenvolve trabalhos organizativos objetivando uma transformação revolucionária na sociedade e a elaboração de uma teoria geográfica compatível com estes propósitos. Edita uma revista, integra movimentos políticos e reivindicatórios locais e regionais, realiza congressos e mantém centros organizativos em Boston e Baltimore nos Estados Unidos e Montreal, Toronto e Vancouver no Canadá. Divulga as sua concepções procurando renovar o conhecimento geográfico, apresentar alternativas aos profissionais e contribuir para a reforma da sociedade.

Como foi visto, a chamada Geografia Crítica ou  Radical nos Estados Unidos foi impulsionada principalmente por dois líderes, David Harvey e William Bunge. Em suas obras mais recentes abordam o estudo das interações entre o capital e a organização espacial, dando continuidade aos postulados marxistas (ANDRADE, 1992, 125).

A Geografia Crítica no continente europeu fundamenta-se em autores do século XIX, tais como, Marx, Engels, Kautsky, Lênin, Reclus e Kroptkin; autores menosprezados tanto pelos geógrafos clássicos quanto pelos que vieram da Geografia Quantitativa.

Depois da Segunda Guerra Mundial, quando teve início o processo de reconstrução da Europa, verificou-se interesse entre os geógrafos pelo marxismo. Nesta época, muitos geógrafos franceses, integraram-se ao partido comunista francês, que havia se destacado na resistência à ocupação nazista. Estes geógrafos buscaram fundamentos para a ciência geográfica no materilismo histórico, tentando conciliar os princípios do possiblismo com a dialética hegelliana-marxista. Yves Lacoste constestou a Geografia Clássica e  demonstrou o grande abismo existente entre dois tipos de geografia:  a dos professores, ministrada nas escolas  secundárias e nas universidades e um seu sucedâneo, a chamada geografia-espetáculo, presente na mídia;   e a dos generais e administradores.

Os acontencimentos na Hungria, em 1956, precipitaran a saída de muitos geógrafos do Partido Comunista Francês, ocasionando um certo afastamento do marxismo nos meios acadêmicos. Restaram vínculos com alguns intelectuais, tais como os  filósofos, Althusser e Lefebvre;   o urbanista Castels e o economista Charles Bethleim. Apesar disso,  a terminologia marxista e os fundamentos da dialética permaneceram em trabalhos de inúmeros geógrafos franceses.

Yves Lacoste, criador da revista “Herodote” (1976),  liderou a ala mais influente. Nesta publicação foram abordados temais contemporâneios,  tais como,  a crise da geografia face às novas tendências; a relação entre a dialética de Hegel e a geografia; o legado de Reclus; a questão da ideologia; os problemas da paisagem e do trabalho no campo; as questões do imperialismo; os problema urbanos, como o das metrópoles; o problema da Argélia; o problema da estratégia e da ideologia; o problema da história da geografia; os problemas climáticos e ambientais, dentre outros assuntos. Depois de algum tempo o termo  geopolítica foi reabilitado por Lacoste, que  passou a defender a participação dos geógrafos na ação política e a construir uma geopolítica dos povos que contribuísse para a libertação nacional no plano externo e a libertação interna no plano da sociedade.

Além da “Herodote”,  a revista “Espaces/Temps”, assumiu uma perspectiva amigável em relação ao marxismo. A questão ecológica é examinada sob uma ótica bastante radical, com escritos de geógrafos conceituados e de jovens que buscam alternativas.

Seguindo os passos da Geografia Crítica desenvolve-se o que recebeu o nome de Geografia Política. Deste modo, Influenciado por Lacoste, na França, vem sendo editado o “L’État du Monde”, no qual se estuda os problemas políticos no que se referem ao espaço produzido, apresentando uma visão panorâmica da conjuntura mundial.

Segundo Capel, apesar de ter se originado da Geografia da Percepção, haveria ainda uma Geografia Humanista, alinhada com as Geografias Críticas. De filiação antipositivista, rejeita as características objetivas,  mecanicistas, determinísticas da Geografia Quantitativa e faz a defesa de uma proposta na qual os significados, os valores,  os objetivos e metas da práxis humana sejam mais valorizados. O seu objetivo prioritário é mostrar que há discrepâncias entre as condições do meio e a percepção que o indivíduo e a coletividade têm deste meio. Estas percepções visualizadas nos mapas mentais, não coincidem com a representação da cartografia e atuam nas escolhas sobre a organização espacial. Esta concepção de geografia, ao levar em consideração a subjetividade, a cultura e a sociedade, tenta apresentar uma estruturação do espaço mais adequada a cada comunidade (CAPEL, 1983, 443).

A Geografia Crítica, pelo que foi visto, é um espaço muito amplo no qual coabitam propostas diversificadas, apesar de possuírem objetivos e princípios comuns. A coesão desta reside na atitude de oposição a um mundo estruturado social e espacialmente de forma contraditória e injusta. O conhecimento geográfico é concebido como instrumento estratégico no enfretamento à ordem reinante. É uma concordância de objetivos fundamentada pela posição de classe, pela perspectiva da ciência enquanto momento de ação, pela plena convicção da natureza política do discurso geográfico. Em síntese: a unidade da Geografia Crítica  é uma unidade de natureza ética e os seus objetivos comuns diversificam-se em muitos fundamentos metodológicos e epistemológicos. Tais como estruturalistas, existencialistas, analíticos, marxistas de inúmeros matizes, ecléticos, e outros. São resgatados  para a fundamentação das propostas vários autores, como por exemplo, Adorno, Foucault, Mao Tse-Tung, Lefor, Godelier, Barthes, Lênin, Sartre, etc.

Esta multiplicidade de pontos de vista acaba resultando positiva, pois estimula a discussão, faz eclodir polêmicas necessárias e alavanca as elaborações. Novos conceitos explicativos podem surgir neste ambiente permeado pela crítica e isento de dogmatismos e fossilizações. Novas trilhas são tentadas,  esquemas consagrados são problematizados, inéditas equações são experimentadas. A Geografia Crítica, promessa  inconclusa, tem muito o que fazer e o que mostrar. O seu limite é o futuro.

A Geografia Crítica é uma manifestação no campo da ciência dos conflitos ideológicos que se degladiam na sociedade de nossa época. Os geógrafos críticos, nas suas mais variadas posições, optaram por um caminho que vai em direção à transformação  da sociedade. Procuram uma geografia nova que possa contribuir, no interesse da maioria, na construção de um novo espaço geográfico.

2.1.17.  UM PARÊNTESE: A GEOGRAFIA-ESPETÁCULO
Abordaremos, a seguir, a questão da existência de uma “geografia-espetáculo”, a partir das concepções de Lacoste, anteriormente citadas, pois o assunto revela íntima conexão com o objetivo principal do nosso trabalho.

Acreditamos que o conceito possa ser melhor compreendido se levarmos em conta, em primeiro lugar,  as transformações tecnológicas ocorridas na sociedade contemporânea. Principalmente no que se refere às conseqüências verificadas no campo da comunicação de massa. Não podemos esquecer que estas mudanças ocasionaram uma alteração no papel ideológico desempenhado  pela escola em relação à sociedade. Muitos estudiosos constataram que uma parcela considerável dos objetivos e dos papéis tradicionais da instituição  escolar foram transferidos principalmente para a TV, exacerbando a crise do ensino e intensificando o debate de sua eficiência e função nas sociedades de massa atuais. A partir do século XIX e até meados do século XX, a escola foi a principal instituição encarregada de formar e transmitir os  princípios éticos, atitudes e conhecimentos fundamentais para a socialização das populações urbanas. Esta situação se alterou com a crescente influência da mídia e particularmente da TV, que se manifesta conectada a interesses ideológicos e econômicos dos grandes grupos financeiros, associados a parcelas da elite política. (NAPOLITANO, 1999, 18).

Lacoste considera que a partir do final do século XIX existiriam duas geografias: a primeira, de origem antiga, a chamada geografia dos Estados-maiores, que seria um conjunto de representações cartográficas e de conhecimentos diversificados sobre o espaço. Este conhecimento heterogêneo é reconhecido como de importância estratégica pelas minorias que estão no poder e o empregam com o propósito de nele se manter. A segunda seria a denominada geografia dos professores, que surgiu no século XIX e teria se tornado uma discurso ideológico no qual uma das funções inconscientes seria a de ocultar a importância estratégica do conhecimento sobre o espaço. A grande diferença entre as duas seria a de que alunos e professores não teriam a mínima idéia da utilidade dos conhecimentos  fornecidos pela análise geográfica, ao contrário daqueles que comandam, tais como generais e  executivos de alto escalão, que saberiam exatamente da sua utilidade. Mas, segundo Lacoste, a geografia dos professores não seria o único “pára-vento” ideológico que permitiria escamotear que o saber a respeito do espaço seria um poderoso instrumento de dominação:

“...a geografia também se tornou espetáculo: a representação das paisagens é hoje uma inesgotável fonte de inspiração e não somente para os pintores e sim para um grande número de pessoas. Ela invade os filmes, as revistas, os cartazes, quer se trate de procuras estéticas ou de publicidade. Nunca se comprou tantos cartões postais, nem se ‘tiraram’ tantas fotografias de paisagens como durante essas férias em que ‘se fez’, com guias nas mãos, a Bretanha, a Espanha ou...o Afganistão.”  Grifo nosso.(LACOSTE, 1985, 34).
O turismo assumiria uma função ideológica e transformaria a geografia em uma mercadoria de consumo de massa. Uma enorme quantidade de pessoas buscaria avidamente a fruição estética de paisagens, dentro de um repertório mais ou menos estereotipado. O mapa, representação do espaço, que apenas uma minoria saberia ler e traduzir como instrumento de poder, seria substituído no imaginário coletivo pela fotografia da paisagem.

O problema não seria simplesmente a contemplação desta ou daquela paisagem, mas a fotografia e o cinema, e poderíamos acrescentar a televião, reproduziriam sem trégua certas imagens-estereótipos, que seriam como mensagens, como discursos emudecidos, de difícil decodificação, como silogismos, que por serem subrepticiamente transmitidos, não deixariam de ser menos autoritários. A contaminação da atmosfera social pelas imagens-mensagens geográficas,  disseminadas, veiculadas pelos meios de comunicação de massa, seria um fato historicamente recente, que nos tornaria passivos, em atitude de contemplação estética, e que afastaria para mais distante a incômoda verdade de que alguns podem esquadrinhar o espaço de acordo com certos métodos, e que a partir daí estariam em condições de estabelecer estratégias para iludir o adversário, e assim, derrotá-lo.

Desta maneira, a geografia-espetáculo e a geografia escolar, apesar de suas peculiaridades, levariam aos mesmos resultados. Ou seja, esconderiam a noção de que o conhecimento geográfico poderia ser um poder, que certas representações do espaço poderiam tornar possíveis determinadas ações e  viabilizar certos interesses políticos; difundiriam a noção de que a geografia prescindiria de qualquer raciocínio, sobretudo de um raciocínio estratégico articulado tendo em vista as regras de um jogo político.

Debord, por sua vez, trabalharia com um conceito muito mais amplo, mas  inteiramente correlato ao conceito de Lacoste. A geografia-espetáculo seria apenas um aspecto de um fenômeno muito mais abrangente: a total especularização da sociedade. Tudo se transformaria na sociedade contemporânea em espetáculo. Todo o fundamento das sociedades nas quais imperam as modernas condições de produção apresentar-se-ia como um monumental acúmulo de espetáculos. Tudo que estivesse vivo teria se transformado em representação.

O espetáculo seria simultâneamente a própria sociedade, uma parcela da sociedade e um instrumento de unificação.  Enquanto parcela da sociedade ele seria o  núcleo que concentraria todo o olhar e toda a consciência. Em decorrência de ser este núcleo separado, ele seria o ponto de fuga de uma perspectiva ilusória e da falsa consciência. A unificação empreendida por ele seria na verdade o discurso oficial da separação generalizada. Ele não seria tão somente um repertório de imagens, mas uma relação social entre pessoas, conectada por imagens. Tendo em vista sua constituição total, o espetáculo seria ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. O espetáculo corresponderia a uma construção objetiva da alienação e a expansão econômica seria, principalmente, a expansão desta produção industrial específica. O que ganharia vulto com a economia que move por si mesma só poderia ser a alienação recôndida em seu núcleo de origem:

“O homem separado de seu produto produz, cada vez mais e com mais força, todos os detalhes de seu mundo. Assim, vê-se cada vez mais separado de seu mundo. Quanto mais sua vida se torna seu produto, tanto mais ele se separa da vida. O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem.” Grifo nosso. (DEBORD, 1997,25).


Em Debord a simples geografia-espetáculo se agiganta e se generaliza a tal ponto que se transmuta em sociedade-espetáculo. O mais conceituado geógrafo brasileiro, por sua vez, citando Debray , afirma que este,  ao propor uma nova disciplina, a “midiologia”,  teria dito que se tivesse que estabelecer uma relação com outra disciplina esta seria exatamente a geografia. A alegação sustentar-se-ia no fato de “que a mídia, antes de ser comunicação é espaço. A percepção do espaço está ligada à velocidade das pessoas, das coisas e das mensagens.” (SANTOS, 1994, 178 ). Ou seja, Debray apresenta simultâneamente a preocupação com a mídia e com o espaço, e com o trabalho dos midiólogos e dos geográfos:

“O espaço é mídia nos dois sentidos. Ele é linguagem e também é o meio onde a vida é tornada possível. A percepção pela sociedade e pelo indivíduo do que é esse espaço, depende da forma de sua historicização e esta resulta em grande parte dos progressos nos transportes e nas comunicações, na construção do tempo social.”  Grifo nosso. (SANTOS,1994, 41).


Aparentemente as noções de geografia-espetáculo e sociedade-espetáculo estariam convergindo para o conceito elaborado por Santos de meio técnico-científico Informacional. O meio de sobrevivência da humanidade, o seu entorno, não seria mais o que, num passado recente, algumas ciências sociais denominaram de meio técnico. Segundo Santos, o meio técnico-científico-informacional seria um meio geográfico onde o território incluiria necessariamente ciência, tecnologia e informação. Deve ser ressaltado, como vimos,  o elemento informação na constituição deste novo meio técnico:

“A ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de todas as formas de utilização e funcionamento do espaço, da mesma forma que participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais). É a cientificização e a tecnicização da paisagem. É, também a informatização, ou, antes, a informacionalização do espaço. A informação tanto está presente nas coisas como é necessária à ação realizada sobre essas coisas.”  Grifo nosso. (SANTOS, 1994, 51).


Os conceitos em pauta, principalmente o de espetáculo, elaborado por Debord,  mereceriam um estudo mais aprofundado. Mas  o que já  temos, tendo em vista o objetivo desta parte do trabalho, nos parece suficiente. Sob o nosso ponto de vista atual, tais conceitos seriam correlatos, apresentariam  um caráter de complementaridade e poderiam contribuir para o desvendamento do nosso contemporâneo espaço geográfico, este grandioso espaço geográfico espetáculo, este espetacular espaço geográfico globalizado.


2.1.18.  CONCLUSÃO
Finalizaremos esta parte do nosso trabalho ressaltando alguns tópicos, que para nós se tornaram mais claros, após o estudo da evolução do conhecimento geográfico. Trata-se das relações entre a produção científica e a ideologia.

Considerando a evolução dos conhecimentos geográficos relacionada ao estudo do desenvolvimento do capitalismo, podemos concluir  que não existiria a ciência pura de um lado, e a ideologia de outro. Verificamos que haveria diversificadas perspectivas científicas e que estas estariam imbricadas, de um modo geral, a diferentes perspectivas ideológicas de classe. No entanto, cumpre ressaltar, também, a existência da autonomia relativa da esfera científica, a especificidade desta atividade, a determinada continuidade intrínseca entre as obras de determinados autores,  em um contínuo processo não linear de superação crítica, portanto, repleto de rupturas e cortes. 

Tendo em vista  o que foi exposto, constatamos que não foi possível referendar duas concepções opostas que seriam, na verdade, segundo nosso atual ponto de vista, dois equívocos metodológicos.

A primeira poderíamos chamar de “reducionismo sociológico”, o qual se empenharia na redução unilateral da ciência à classe social, ao ponto de vista de classe. Para nós não foi suficiente definir apenas o caráter de classe de um autor para determinar o conteúdo científico de sua produção. Verificamos que há uma especificidade do conhecimento científico que não pode ser restringida ao embate das posições de classes diferentes. Existiria um valor científico intrínseco que faz com que diversos autores aprendessem com a produção científica de outros e construiriam suas teorias a partir das descobertas anteriores em um processo não linear de superação crítica.

A segunda concepção, diametralmente contrária à anterior, e que também não foi possível constatar no nosso estudo,  e que estaria relacionada principalmente à concepção positivista,  seria a de acreditar que a producão científica não teria nenhuma relação com a ideologia, ou com a luta de classes. Nesta perspectiva equivocada,  a história da ciência passaria a ser completamente independente, isolada da história da luta de classes (LÖWY,1985,104).

Ao contrário, verificamos que as profundas alterações que se realizam na evolução do pensamento corresponderiam aos movimentos ideológicos consoantes aos processos de transição de determinados modos de produção em direção a outros, e também às mudanças significativas no interior de um mesmo modo de produção,  que no âmbito filosófico e científico, seriam expressões das transformações realizadas ao nível econômico e político. O desenvolvimento das estruturas econômicos-sociais impulsionaria  modificações na chamada superestrutura cultural e na maneira de traduzir o processo de relações entre a sociedade e a natureza (PEREIRA, 1993, 61).

Foi possível, assim, após o estudo, a nossa concordância com os teóricos da Escola de Frankfurt, por exemplo,  que ao abordarem o estatuto das ciências sociais,  teriam enfatizado sempre que os cientistas sociais seriam parte do objeto sob investigação e que, por isso, a percepção da realidade social seria contaminada pelas categorias sociais. Teriam colocado  em pauta, desta maneira, a questão da ideologia dos cientistas, e teriam procurado demonstrar que o pesquisador seria influenciado por seus próprios valores na análise dos fenômenos sociais (CAPEL, 1983, 413).

Portanto, sob o nosso ponto de vista, o conhecimento científico,  e, conseqüentemente, o conhecimento geográfico estariam inapelavelmente imbricados com as chamadas estruturas sociais que funcionariam como  “infra-estruturas”  às formações sociais. As manifestações culturais, nas diversas áreas do conhecimento, não seriam imóveis, nem estreitas e limitadas. Estariam, na verdade,  em constante movimento, e mostrar-se-iam comprometidas com a ação concreta e as modalidades de pensamento originárias das estruturas que dominariam a sociedade.

Concluimos, deste modo, que apesar da inequívoca particularidade do seu desenvolvimento, a geografia como ciência e como práxis estaria profundamente relacionada e dependente das relações sociais, e, simultâneamente, verificamos que o pensamento geográfico não seria isolado, mas estaria em conexão com o pensamento das demais ciências, tanto sociais, como naturais.

Ressaltamos deste modo, para finalizar,  o caráter ideológico que desde o início teria se  manifestado na geografia institucionalizada, que teria  se materializado muito mais enquanto “uma ideologia do que um filosofia e isso não se deu apenas na Alemanha mas um pouco pelo mundo todo” (SANTOS, 1996,13).


________
[2] Douglas Santos, em sua interessante tese de doutorado,  traça a evolução da concepção de espaço dos tempos modernos até os dias atuais.
[3] “Fronteras, dominio del estado, expansión, proclamación del estado por encima de las clases sociales, estados dotados y estados débiles, estabilidad de la instituición política... ¿Podrá alguien poner em duda que eran éstas precisamente las ideas que preocupaban, cuando Ratzel escribia, a la burguesia industrial alemana, em el momento en que Alemania se ha reunificado, ha alcanzado unos límites en los que se enfrenta a otros poderosos vecinos y en que se lanza a la expansión colonial extraeuropea, reconocida por el Congreso de Berlín? ¿Quedará alguna duda de la relación entre las ideas científicas y la organización social? ¿Se podrá negar que a veces los científicos bajo um planteamiento que pretende se objetivo no hacen más que contribuir a la justificación idelológica de los intereses de la clase dominante planteando precisamente los problemas que a ésta interesan y de la forma como le interesa?”

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